segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Entorpecentes


Por Ígor Luz


Estou na maior vagabundagem: desempregado e de férias da faculdade. Fico o dia todo em frente à TV, sedentário e sujo de farelo de salgadinho, assistindo a novelas e reprises do Scooby Doo. Também viciei nos programas de auditório. No final do ano passado, eu estava estudando e trabalhando. Era um horror. Vivia lendo e escrevendo, escrevendo e lendo. Agora posso me vangloriar. Nós, brasileiros, podemos contar com a pior TV do planeta. É só ligar na novela das 7 e, depois de cinco minutos, a parte esquerda do meu corpo começa a formigar. Depois de 30 segundos de Domingão do Faustão meus olhos começam a se fechar. Um milagre. Em dezembro do ano passado, meu corpo ficava tenso com artigos, crônicas e Chaparro em minha cabeça.

Cheguei essa semana em minha casa e, tristemente, pude contar com uma TV paga me esperando. Foi a pior notícia que minha mãe me deu. Não me importei com a empregada epiléptica. Não me importei com suas dores de estômago. O que me incomodou é que agora estou cheio de coisa interessante para assistir. Meu corpo não começa a formigar com Law and Order. Meus olhos não se fecham com um documentário de Pasolini sobre a Índia. O problema é que perdi aquele reconfortante torpor que a televisão brasileira me provocava. Chateado, fui à banca de revista a fim de comprar um jornal. Não tinha. Resolvi, então, comprar um coquetel em sua versão mais difícil. Havia mais de 5 anos que eu não fazia palavras cruzadas. Tudo continua perfeitamente igual. Figura bíblica? Noé. Interjeição mineira? Uai. A sétima arte? Cinema. Muro, em francês? Mur. Largo imediatamente a revista e dou para minha prima pequena rabiscar.

Para conseguir descansar, o jeito foi ficar viajando pela internet. Comecei pelas salas de bate-papo, achando que seria a tentativa mais mesquinha de fazer meu sono voltar. No início funcionou. Numa sala sobre cinema, um menino apelidado Matador repetia insistentemente o mesmo bordão: Há há há há. Quando estava prestes a despencar a cabeça para o lado, babando delicadamente, entrou um certo DI-vorciado e começou a teclar com Gataa32. O resultado foi o maior atentado à língua portuguesa que verifiquei até hoje: infelismente, faiz, quiz, afim. Instantaneamente, fiquei acordado pensando no aspecto mais paradoxal das salas de bate-papo: a molecada semi-analfabeta e obrigada a se comunicar da forma que menos domina, a língua escrita. Depois, meus devaneios foram mais longes e comecei uma sólida discussão com minha mãe, que estava por perto, sobre a reforma ortográfica. A única conclusão que cheguei a esse respeito foi a seguinte: para os brasileiros, essa reforma teve efeito totalmente nulo. Eles não sabiam escrever direito antes dela e não saberão escrever direito depois dela.

Depois do estimulante debate com minha mãe, resolvi tentar outra coisa pela internet. Comecei ler as notícias mais lidas da Folha Online. Li que Sthefany Brito e Alexandre Pato terminaram o noivado. Perna esquerda adormece. Depois que li que Tom Cruise vai ganhar uma blusa do Brasil de presente, assim que desembarcar no Rio de Janeiro. Um bocejo. Li que Deborah Secco chorou num programa de auditório. Um grande bocejo. Ou seja, mesmo longe da TV aberta, a internet me oferece interessantes relatórios sobre o que acontece por lá.

Resolvo tirar um cochilo. Quando já estou preparado para deitar, com direito a blusa velha e short rasgado, lembro que hoje é sexta-feira. Dia de escrever minha coluna para o Revertério. Penso distraidamente, ainda deitado, em um assunto para a coluna. Ainda estou cansado. A vagabundagem começou a pesar. Estou chutando cachorro morto: a televisão brasileira, a estúpida falta de criatividade, os adolescentes semi-analfabetos, a reforma ortográfica, a internet. Agora chega. Vou ver Big Brother

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