A TARDE
XX
O curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba) é um dos 17 que serão fiscalizados pelo Ministério da Educação (MEC) para atender a solicitações em prol da qualificação do ensino. O Ministério divulgou a lista das instituições de todo o País que serão acompanhadas em função do resultado abaixo do esperado (conceito 1 ou 2) no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) e no Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD).
O resultado no Enade é mais um sinal de alerta para a faculdade, primeira no País, que há anos vem demonstrando a necessidade de melhorias urgentes. A instituição, que acaba de completar 200 anos, oscilou entre os conceitos B e C no antigo provão, subsituído pelo Enade, nas avaliações de 2000 a 2003. Segundo o Ministério da Educação, os cursos indicados terão de apresentar um diagnóstico sobre o desempenho, com a lista das medidas para sanar as deficiências apontadas.
O anúncio do ministério – junto ao conceito 2 nos dois indicadores citados - não surpreendeu o diretor da Faculdade de Medicina da Ufba, José Tavares Neto. “O curso era ruim mesmo”, admite. Segundo ele, a própria faculdade vem dando sinais de alerta desde o início de sua gestão, há 4 anos. “Em 2004, a congregação solicitou o cancelamento do vestibular exatamente por causa desde quadro”, lembra. Segundo ele, o que cabe à direção da escola para melhorar o curso já está sendo feito.
Reformulação - Tavares aponta como principal medida para atender às solicitações do MEC a reformulação da grade curricular, iniciada em 2007. Segundo o dirigente, a reformulação prevê a inserção precoce do aluno no contato com pacientes, o que significa maior ênfase à prática. “Persistindo o modelo de ensino como estava, teríamos o desempenho pior a cada ano”, acredita. Ele relaciona ainda a melhoria nos espaços acadêmicos e na remuneração dos docentes.
É exatamente a falta de campos de prática que o diretor aponta como um dos maiores desafios para a instituição. Segundo Tavares, até mesmo o Hospital Universitário carece de estrutura para receber os estudantes. Esse é um dos motivos que levaram a direção da faculdade a se posicionar contra o Programa de Apoio a Planos de Expansão e Reestruturação das Universidades (Reuni), que prevê o aumento de vagas nas instituições federais. “Desde 2004, estamos dizendo que a coisa está mal, e agora vem um desejo de ampliar vagas. Nós discordamos plenamente”, enfatiza Tavares.
O coordenador geral do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina, Gabriel Schnitman, concorda que há muito há melhorar. Para ele, o excesso de teoria em detrimento da prática prejudica o ensino. O estudante lembra, entretanto, que o boicote ao Enade, promovido em campanhas nacionais pela Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina, também influenciou o resultado. “Os estudantes acreditam numa avaliação formativa e processual”, explica.
Gabriel endossa a justificativa do diretor da faculdade e acrescenta que, mesmo com a inserção de disciplinas práticas no currículo, a falta de vagas nas unidades de saúde para estudantes continua, principalmente por causa da dificuldade de parceria com a Secretaria de Saúde. “Até mesmo os postos não estão preparados para receber os estudantes, e não temos professores que se disponibilizam a ir para os postos”, revela.
Qualidade - Segundo o ministro da Educação, Fernando Haddad, o novo processo de supervisão dos cursos de Medicina segue a linha do que vem sendo feito com os cursos de Direito e Pedagogia. Ele explica que a intenção é garantir a expansão do ensino superior com qualidade. Das 103 instituições avaliadas, apenas duas são baianas. Além da Ufba, está na lista a Faculdade Baiana de Medicina, que teve conceito 3 no Enade e está livre da fiscalização.
A faculdade da Ufba e as demais instituições apontadas pelo Ministério da Educação terão de mostrar medidas para melhorias ligadas às áreas de ensino; integração do curso com os sistemas local e regional de saúde; perfil dos estudantes; oferta de vagas; perfil do quadro docente, incluindo titulação e regime de trabalho; coordenação e infra-estrutura, incluindo condições da biblioteca e produção científica.
O MEC garante que vai ajudar com direcionamento de recursos para sanar as deficiências encontradas nos cursos de universidades federais avaliados com baixo desempenho – além da Ufba, as federais de Alagoas, Amazonas e Pará. A ajuda não exclui, entretanto, a apuração de possíveis responsabilidades de dirigentes pelo baixo desempenho.
Disparidade – Enquanto a graduação tem desempenho reprovado pelo MEC, os cursos de pós-graduação da Faculdade de Medicina – mestrado e doutorado – têm boa avaliação. Segundo o diretor da unidade, a Ufba é referência no País em pesquisa da área médica. A instituição possui dois cursos com nível 6 (numa escala de 0 a 7) na avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes): 'Patologia Humana' e 'Medicina e Saúde'. Outro curso, 'Saúde, Ambiente e Trabalho', ainda não tem avaliação da Capes.
Em 2009, mais um curso do Programa de pós-graduação será implantado para reforçar a pesquisa: 'Ciências da Saúde'. Na opinião de José Tavares, o próprio governo estimula a disparidade quando dá mais apoio à pós graduação do que à graduação. “O Brasil tem um sistema de educação precário em todos os níveis, e estamos valorizando muito o ápice e desvalorizando a base”, opina.
Ele argumenta que, enquanto a pesquisa tem facilidade para obter recursos para bolsistas e equipamentos para laboratórios, a graduação sofre com a escassez deles. "Na graduação tudo é uma via crucis para conseguir", diz. O direotr destaca a insuficiência da quantia destinada à unidade para manutenção, que é de R$ 27 mil por ano. Segundo Tavares, a situação só começou a melhorar no ano passado, com os recursos do Pró Saúde, que estão sendo usados nas modificações do curso.
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