domingo, 12 de abril de 2009

Academia do Papo


A mídia e o professor

Há poucos dias morreu o professor Gilberto Dupas da USP. Até aí nada de anormal, já que todo mundo infelizmente terá esse fim. O que nos inquieta, principalmente aos que lidam com ciência, cultura, vida acadêmica e vida pública foi o tratamento que se deu ao desaparecimento desse respeitável brasileiro. Nenhuma de nossas redes de televisão se deu a obrigação de fazer-lhe um necrológio. Os jornais escritos não se pronunciaram, a mídia eletrônica idem e nossas emissoras de rádio continuaram tocando suas programações indiferentes ao fato. Depreende-se por esta desatenção, que a atividade intelectual e científica no Brasil é produto de quinta categoria. Penso que por causa de coisas como essa, o Cazuza um dia cantou: Que país é este?


Quer dizer que morre o Prof. Dupas e ninguém lhe reverencia? Sim senhor. Os nossos sistemas de comunicação passaram ao largo desse desagradável acontecimento. O notável professor para a nossa mídia pareceu nunca ter existido. Triste mídia. Deplorável mídia. Se fosse eu que tivesse morrido, tudo bem, mas um cientista que se empenhou sobre análises importantíssimas da realidade, investigando sobre as tensões contemporâneas entre o público e o privado, as relações internas e externas do poder, nossas ilusões com o falso desenvolvimento (O mito do progresso), a renda, o consumo e o crescimento, a economia global e a exclusão social, os atores e os poderes na nova ordem mundial, enfim, toda a rede de complexidade que exige do homem coetâneo minuciosa reflexão e cultura para entendimento do tempo em que vive, e a mídia não diz nada. Isso é estarrecedor...

A perplexidade aumenta quando se toma conhecimento que “um grande artista” ou alguma “celebridade participante do BBB” foi convidado e agora está sendo fotografado por um paparazzi em uma entrevista super concorrida, após “realizar uma conferência” para uma instituição pé de chinelo, falando sobre suas “experiências” dentro da Casa Big Brother. Fantástico, não? Nesse caso, meu amigo e minha amiga, toda a imprensa, toda a Nação se interessa. Fazem chamada no Fantástico, no Domingo Espetacular, os jornais estampam manchetes, as emissoras de rádio se ocupam o dia inteiro do acontecimento, os comentaristas não param um minuto de falar sobre o que disse ou vai dizer a tal celebridade.

É um mundo subvertido. A lógica foi para as cucuia, a moral pipocou, espocou ou pocou no inferno, como se diz aqui em Conquista. A ética foi pros cafundó de Judas e a mediocridade tomou conta do planeta. No início da década de 1970 a ministra da Cultura da França, governo Giscard D’Estaing, advertiu-nos em um artigo escrito para o Le Monde, sobre o buraco que a contracultura estava empurrando à contemporaneidade. Avançamos muito de lá para cá em termos de irreverência cultural. Todo o planeta elegeu porcarias para expressar sua insatisfação com a ordem predominante (o stablishment). O teatro caiu muito, a literatura seguiu o mesmo rumo, o cinema deixou de ser “cabeça”, mas, penso eu, foi a música quem mais decaiu. Em todo o mundo, os jovens fizeram opção pela bandalheira. Músicas de baixo nível harmônico, melódico e poético tomaram conta do Universo. Em depoimento recente o músico Toninho Horta disse que os grandes músicos americanos, verdadeiros ícones da arte canoro-instrumental daquele País estão passando um perrengue filho da mãe. Por outro lado, bandas de rock de quinta categoria (as de primeira, vale a pena ouvir) se apresentam à peso de ouro e são tratadas pela sociedade como verdadeiros porta vozes da mais alta expressão estética. O que se sabe é que em todos os lugares, a coisa tá feia.

Por causa dessa inversão de valores, caímos na triste constatação de que para esse mundo, não basta ser ético, estudioso, investigativo, cientifico, artístico ou comprometido com a missão de torná-lo melhor. O que importa é fazer coisas que proporcionem sucesso. Esta é a palavra chave: Sucesso! Todos querem fazer sucesso, mesmo que para isso abram mão das responsabilidades mais comezinhas. Não importa qualidade em nada. O que vale é a capacidade de transformar porcarias em oportunidade. Os especialistas em mercado afirmam peremptoriamente que o mundo é feito de ameaças e oportunidades. Louvado será aquele que souber transformar situações adversas em matéria e valores benéficos para si. Mesmo que para isso, tenha que fazer das tripas coração. O grande pilar dessa filosofia reside no seguinte lema: “os meios justificam os fins”.

Lamentável esse mundo. Um mundo em que um professor emérito como Gilberto Dupas vai embora sem que a Pátria lhe acene como deveria. Um mundo em que um cientista, um pensador respeitado na Europa e Estado Unidos, dá adeus sem que dêem notícias da grande perda para a Nação. Penso que nossos jornalistas o esqueceram porque deveriam estar ocupadas na cobertura do resfriado de algum cantor sertanejo ou então preocupados com o sujeito que ia ser eliminado no paredão do Big Brother. Deve ter sido isso! Deus tenha piedade de nós. Um abraço cordial e até a próxima. Paulo Pires
(*) Professor UESB-FAINOR

2 comentários:

Anônimo disse...

Salvo engano, a célebre frase “Que país é esse? ” foi perpetuada pelo lendário e saudoso Renato Russo, vocalista da Legião Urbana, e não por Cazuza, como afirmou o professor Paulo Pires.

Anônimo disse...

Quão bela é vossa observação meu livre e admirado pensador. Isto me faz lembrar do nobre e respeitado jurista baiano Josaphat Marinho.
Quando da sua passagem,poucas foram as referências ao seu legado no campo das letras jurídicas. Aquilo que pouco se falou ficou restrito ás limites geográficos da capital bahiana. Tem nada não, vai ver algo de mais "profundo" encontraremos nas letras das músicas do nosso axé.

Grande abraço Paulo!