quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Não Apenas um Jogo de Sedução


Sempre haverá gente querendo se exibir, principalmente quando está em jogo uma boa quantia em dinheiro e a possibilidade de fama instantânea. Sair do anonimato e se tornar famoso, mesmo que sejam os chamados “quinze minutos de fama”, são as aspirações de muitos. Efêmeros, não há duvida, no entanto ninguém abre mão, se sacrifica até, uma vez que a necessidade de aparecer é mais forte num mundo populoso e obscuro. Hoje sabemos que somos apenas um número. O "Big Brother" é um exemplo típico de satisfazer o ego ao se expor publicamente; pois ali, o programa mesmo depois de editado, os participantes são mostrados com suas fraquezas, anseios e virtudes, de forma nua e crua para o mundo exterior, dos sentidos.

O romance ‘1984’, que serviu de inspiração ao criador do programa “reality show” – escrito pelo inglês George Orwell – o personagem central é o próprio Big Brother, Grande Irmão, livro publicado em 1948. Preocupado com o poderio totalitarista soviético, ele imaginou uma sociedade dominada por um ditador, que se autodenominara “Grande Irmão”. Nela, os cidadãos seriam permanentemente vigiados por câmeras instaladas em todas as partes, a começar pelas suas próprias casas. Certamente o autor jamais imaginou que sua obra seria usada nos regimes ditos “democráticos” para vigiar e controlar a sociedade – contradizendo, paradoxalmente, as circunstâncias e a época em que fora escrito –; e o seu personagem principal, o Grande Irmão, adaptado como um “reality show” televisivo.
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Em princípio, o Big Brother Brasil é um jogo que vale simplesmente a bagatela de um milhão de reais; pois todos os participantes entram em iguais condições e se submetem a algumas regras que são as diretrizes de tudo. A intervenção do apresentador acontece como forma de brecar os excessos. Especificamente neste “BBB 9” houve uma inovação: criaram um confinamento de vidro num shopping Center do Rio, onde deixaram duas moças e dois rapazes encarcerados e expostos, próximos dos olhares cúmplices da visitação pública. Repartindo as câmaras com os sarados e as siliconadas, incluíram também dois senhores, o radialista Norberto, de 63 anos e uma senhora de 61 anos, dona Naiá – os primeiros participantes da terceira idade no programa. Característica que diverge das versões anteriores, provavelmente idealizou-se duas pessoas vividas no meio de jovens para equilibrar a impetuosidade e abocanhar uma parcela de telespectadores de meia idade que resiste em não querer demonstrar o seu lado voyeur. Mais uma tacada de marketing da Rede Globo neste início de ano.
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Um fato que também despertou a curiosidade da platéia é a média de idade e a escolaridade dos participantes. Tem estudante de administração, assessoria de imprensa e doutorando. Enquanto o reality show é uma exposição de valores humanos submetidos à avaliação popular como se fossem vidas postas em cena, não ameniza as nossas baixezas, tampouco glorifica a lógica dos sonhos; para os integrantes, uma maneira rápida e fantasiosa de ascensão social, êxito promocional e, acima de tudo, de realização como celebridades artísticas. Quanto aos afetos e desafetos que se desenvolvem dentro da casa, os participantes tendem a criar vínculos de amizade e solidariedade que são vistos como subsídios emocionais que auxilia o expectador na hora de decidir o voto.
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Afinal de contas, o posicionamento comportamental se torna consistente quando o sentimento convence ou apazigua a dúvida; já que pessoas que vivem numa determinada área e comunguem uma mesma ordem tenham idéias comuns. Por mais tolerantes que sejam, por mais que evidencie maior ou menor complexidade, os participantes sentem, inconscientemente, que bisbilhotar a vida do semelhante é um legado explícito da natureza humana. O que, para muitos, é uma sensação doentia de prazer retraído, para outros é uma combinação de curiosidade, inveja ou maldade. Não obstante, mesmo sabendo que as consequências possam ser desastrosas, ninguém abre mão desse procedimento. Por trás dessa vontade irrefreável de obter prazer vendo o proibido, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, explica bem este mecanismo, que, segundo ele, o voyeurismo está ligado a um desejo que surge na nossa primeira infância. Estamos falando da curiosidade que leva pessoas a gostar de espiar pela fechadura para saber o que acontece do outro lado. Existe até uma expressão freudiana para designar esse processo: “a fantasia da cena primitiva”. Num determinado momento da vida é normal que se tenha curiosidade em ver os outros no banheiro ou o que estão fazendo a portas fechadas; ou seja: o prazer de olhar e despertar a libido.
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Neste sentido e por revelar essa capacidade estrondosa de repercussão, seja através dos números do Ibope, seja através do retorno aos investimentos que são desembolsados na construção do programa, o “BBB” se transformou num verdadeiro laboratório teatral, pois são incontestáveis as expressões vocais e corporais desempenhadas pelos bigbrodianos. Não somente o prêmio é o objetivo principal, pois além de provocar acalorados debates no meio da sociedade, atrai manifestações de simpatia das mais variadas. Muitos dessas pessoas quando saem da casa são revelados na carreira artística como a Grazielli Massafera, Sabrina Sato, Iris Stafaneli e outros que vem se mantendo como celebridades do mundo artístico. Isso, sem dúvida, se tornou o combustível de manutenção do programa, já que do lado dos participantes, existe o exibicionismo e o prazer em serem olhados.
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Por outro lado, de programas dessa natureza podemos extrair algumas lições de vida, sobretudo entre as pessoas que têm dificuldade de conviverem juntas. O estresse do convívio diário lembra os atritos familiares ou as rusgas entre colegas de trabalho. Mesmo com a invenção de códigos para preservar um mínimo de privacidade, ou a formação de subgrupos e as "panelinhas" para se conduzir como líder não é nada fácil. Entretanto, não podemos deixar de imaginar que estamos diante de uma sociedade que tem como padrão os corpos sarados, o bonito, os seios arredondados; enfim as formas, na qual o que se vigia e pune é o mesmo que possibilita a fama.

3 comentários:

Anônimo disse...

Ezequiel, acho muito interessante o conteúdo de seus textos. Nunca gostei do big brother, mas depois que li esta cronica acho que agora estou balançado a assistir pelo menos uma vez por semana. Você deu um banho de informação.

Anônimo disse...

Gostei do esclarecimento histórico do big brother, que eu não sabia, e o enfoque sobre o lado psicologico e de comportamento dos participantes no programa.

professora Maria da Costa Silveira

Brumado

Anônimo disse...

Ezequiel,

Sem comentários; pois o texto está primoroso e muito esclarecedor, segundo a prof. Maria da Costa Silveira. Parabéns!

J.P.Camillo