quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Língua portuguesa agora tem a cara do Brasil


Em várias oportunidades estive imaginando como seriam as mudanças pelas quais passariam a língua portuguesa depois do Acordo Ortográfico. A curiosidade me fez recorrer à leitura e a pesquisa e cheguei à conclusão que, a princípio, não é tão preocupante como parecia, pois teremos até 31 de dezembro de 2012 para a adaptação. Até lá serão aceitas as duas formas da escrita (a antiga e a nova), o que vai facilitar o entrosamento com a nova grafia. A propósito, a partir de hoje terei mais cuidado ao escrever nesta coluna, inclusive, para ir-me acostumando começarei a colocar em prática, já que está valendo, não vejo porque ficar adiando.

De acordo com os especialistas, esta reforma está sendo criada para acabar com as diferenças existentes com a comunicação e as negociações entre os oito países que se utilizam da ortografia da língua portuguesa - Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. As bases do acordo que acaba de entrar em vigor são de 1990; e não é a primeira vez que se estabelecem normas para os países lusófonos. Em 1911, uma reforma ortográfica foi autorizada pelo governo português que simplesmente ignorou a existência da Academia Brasileira de Letras. Somente em 1931 que a Academia de Ciências de Lisboa e a nossa ABL se uniram para aprovar um novo acordo. Contudo as diferenças permaneceram. Em 1945, o Brasil rejeita um acordo porque entendia que mais favorecia aos interesses lusitanos. Até hoje foram muitos estudos, muitas discussões, muitos protocolos e algumas desavenças e, ainda, forte resistência, sobretudo, em Portugal, onde as mudanças na grafia vão atingir cerca de 1,6% das palavras utilizadas naquele país.
.
Portugal recusou-se a assinar o Acordo durante muito tempo porque sabia que as mudanças aproximavam o português da variante utilizada no Brasil. Acontece que as novas regras ganham vida e notória influência brasileira. Vale dizer que o português falado no Brasil é, hoje, o grande referencial deste idioma, e isso, obviamente, incomoda a colônia portuguesa. A partir de agora a língua portuguesa terá ainda mais a cara do Brasil. Isso se deve, essencialmente, à importância política do nosso país no cenário mundial. Até porque o número de habitantes do Brasil é muito maior que o de Portugal, assim como a nossa economia. Todos os oito países que assinaram o acordo contam com aproximadamente 230 milhões de pessoas, e destas 185 milhões estão no Brasil, portanto, nada mais lógico que a nossa forma de escrever se tornasse a mais importante.
.
Pois bem, vamos colocar em prática. Não restam dúvidas que a adaptação será bem mais fácil para quem ainda frequenta as salas de aula. Para nós, os mais velhos, ou melhor, os mais experientes, o bom mesmo é treinar como se fosse um dever de casa; procurando ir se familiarizando com as mudanças e utilizá-las como rotina. Alguns jornais nestes primeiros dias do ano já circularam com as novas regras. Isso, certamente, vai nos ajudar bastante no sentido de impedir os possíveis desvios ortográficos.
.
Com o novo acordo, retornam as letras “k”, “w” e “y”; alguns acentos e muitos hífens desaparecem. Os tremas também deixarão de existir, mas a pronúncia continua igual, como em “lingüiça” que vira “linguiça” e “pingüim” que vira “pinguim”. Entretanto, se o radical terminar em vogal e a palavra começar com a mesma vogal deve-se empregar o hífen. Justamente por conta disso que "antiinflamatório" passará a ser "anti-inflamatório" e "microondas" passará a ser "micro-ondas". Já nos casos em que o prefixo termina em vogal e a palavra começar com "r" ou "s", deveremos duplicar o "r" ou o "s". Portanto, o que era "ultra-sonografia" passará a ser "ultrassonografia" e a vacina que se escrevia "anti-rábica" passa a ser escrita "antirrábica". Da mesma forma as palavras "contra-regra", "supra-renal" e "co-seno" passam a ser grafadas assim: "contrarregra", "suprarrenal" e "cosseno".
.
Acredito sinceramente que agora a grafia da língua portuguesa está com todas as suas peculiaridades e influências brasileiras. Não há como negar que as particularidades das dimensões do Brasil, enriquecidas com seus sotaques, nos garantirá mais propriedade em dizer que usamos mais um idioma "português brasileiro" do que uma "língua brasileira". Isso é suficiente para mostrarmos ao mundo nossa autonomia linguística em comparação com outros povos lusófonos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Meu amigo Zica a cada dia melhor. Crônica rica em informação e conteúdo. Ricardo Gusmão Silva

Anônimo disse...

Bom o tema de Ezequiel. Como professora, vamos nos preparando para absorver a mudança ortográfica.

Marideth de Souza Dias