LAURA DANTAS
ldantas@grupoatarde.com.br
A batalha foi longa, mas a recente vitória preconiza uma profunda transformação na realidade educacional do Brasil, pelo menos no que se refere à música.
Depois de cumprir uma tramitação de quase dois anos pelo Senado e pela Câmara dos Deputados, o projeto de lei que prevê a obrigatoriedade do ensino de música na educação básica foi sancionado na última segundafeira pelo presidente Lula.
A Lei 11.769, publicada no Diário Oficial, determina, em seu artigo 3º, que os sistemas de ensino terão três anos letivos para se adaptar às novas exigências.
Para Felipe Radicetti, compositor e coordenador da campanha promovida pelo Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Música (GAP), que resultou na aprovação da lei, a percepção geral é que a educação musical no Brasil é mais do que importante, é estratégica. “A sanção deste projeto de lei cria um novo paradigma. A presença da música nas escolas tem uma importante função de mediação das relações sociais, mas também é importante pelo caráter de transdisciplinaridade que ela tem. A música pode auxiliar na matemática, no português, na história, na geografia, quer dizer, pode permear todas as matérias”, diz ele.
QUESTIONAMENTOS – A iniciativa do GAP, que conta com o apoio de vários artistas, intelectuais e entidades ligadas à educação e à música, além da imprensa, foi festejada pela cantora Daniela Mercury, que apoiou a campanha desde o início.
“Acompanhei todas as etapas desse processo, fui a Brasília, há poucos meses, junto com outros artistas, para um encontro com o ministro da Educação, Fernando Haddad, e, um dia antes da sanção do presidente Lula, entrei em contato, novamente, com o ministro e com nosso presidente para pedir que o projeto fosse sancionado. Finalmente, nossas crianças voltam a ter no currículo escolar a disciplina música”, celebra.
A lei aprovada, no entanto, já levanta alguns questionamentos diante do veto presidencial ao Artigo 2, que previa qualificação específica para os professores.
“Esse ponto que foi vetado foi colocado no projeto por duas razões muito importantes. Primeiro porque demonstra a nossa preocupação com a qualidade no ensino da música. O outro aspecto é que existe um descompasso concreto entre o número de profissionais que é formado com habilitação específica em música nos cursos regulamentados pelo MEC e os concursos públicos que pedem professores com polivalência, ou seja, formados em artes em geral”, explica Felipe.
O coordenador da campanha vitoriosa acredita que o veto é resultante da precária realidade da educação no País, porém, segundo ele, a falta de um conteúdo programático estabelecido é também uma grande oportunidade para que o debate se amplie. “Não somente os educadores, mas os beneficiados e toda a sociedade civil devem discutir amplamente qual é a educação musical que serve ao Brasil hoje”, diz.
Para Carmen Mettig, vicepresidente da Associação dos Professores de Educação Musical da Bahia (Apemba) e diretora do Instituto de Educação Musical (IEM), a questão é bem preocupante.
“Isso é um escândalo, vamos perder a última possibilidade de acabarmos com esse analfabetismo musical, porque a música é um direito da criança.
Inclui, socializa, educa, disciplina, a música harmoniza, equilibra o sistema nervoso, trabalha o emocional, a sensibilidade”, diz ela ao ponderar que, em países como a Espanha, por exemplo, antes de a lei ser implementada, os professores tiveram dois anos de preparação.
“Tem que dar uma metodologia, um repertório, como se fazer.
Não para que fiquem todos presos a uma metodologia, mas para que todos saibam o caminho a ser tomado para que a coisa funcione”.
Segundo Carmn, o risco é reproduzir a atual situação do ensino das artes na educação básica.
“Com a instituição da educação artística, piorou a situação, porque um professor não pode saber de todas as áreas das artes, não pode ser ao mesmo tempo professor de teatro, de dança, de música e de artes plásticas”, diz.
ESPERANÇA – Felipe aposta em novas pedagogias para o enfrentamento da difícil realidade social do País. “Temos um tradição que começa com Villa-Lobos, mas tenho certeza de que a experiência do passado deve iluminar, mas não pode ser, de forma alguma, a totalidade da nova experiência”, afirma.
Para Daniela, o momento é de unir forças para que a nova lei atenda às expectativas. “Começamos, agora, uma outra etapa de envolvimento dos professores, dos pais, das escolas e de todas as áreas interessadas da sociedade.
A participação do povo brasileiro é muito importante para que consigamos garantir a qualidade dessa disciplina, que será ministrada nas escolas brasileiras.
É essencial que discutamos qual é a educação musical que interessa ao Brasil”, pontua.
ldantas@grupoatarde.com.br
A batalha foi longa, mas a recente vitória preconiza uma profunda transformação na realidade educacional do Brasil, pelo menos no que se refere à música.
Depois de cumprir uma tramitação de quase dois anos pelo Senado e pela Câmara dos Deputados, o projeto de lei que prevê a obrigatoriedade do ensino de música na educação básica foi sancionado na última segundafeira pelo presidente Lula.
A Lei 11.769, publicada no Diário Oficial, determina, em seu artigo 3º, que os sistemas de ensino terão três anos letivos para se adaptar às novas exigências.
Para Felipe Radicetti, compositor e coordenador da campanha promovida pelo Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Música (GAP), que resultou na aprovação da lei, a percepção geral é que a educação musical no Brasil é mais do que importante, é estratégica. “A sanção deste projeto de lei cria um novo paradigma. A presença da música nas escolas tem uma importante função de mediação das relações sociais, mas também é importante pelo caráter de transdisciplinaridade que ela tem. A música pode auxiliar na matemática, no português, na história, na geografia, quer dizer, pode permear todas as matérias”, diz ele.
QUESTIONAMENTOS – A iniciativa do GAP, que conta com o apoio de vários artistas, intelectuais e entidades ligadas à educação e à música, além da imprensa, foi festejada pela cantora Daniela Mercury, que apoiou a campanha desde o início.
“Acompanhei todas as etapas desse processo, fui a Brasília, há poucos meses, junto com outros artistas, para um encontro com o ministro da Educação, Fernando Haddad, e, um dia antes da sanção do presidente Lula, entrei em contato, novamente, com o ministro e com nosso presidente para pedir que o projeto fosse sancionado. Finalmente, nossas crianças voltam a ter no currículo escolar a disciplina música”, celebra.
A lei aprovada, no entanto, já levanta alguns questionamentos diante do veto presidencial ao Artigo 2, que previa qualificação específica para os professores.
“Esse ponto que foi vetado foi colocado no projeto por duas razões muito importantes. Primeiro porque demonstra a nossa preocupação com a qualidade no ensino da música. O outro aspecto é que existe um descompasso concreto entre o número de profissionais que é formado com habilitação específica em música nos cursos regulamentados pelo MEC e os concursos públicos que pedem professores com polivalência, ou seja, formados em artes em geral”, explica Felipe.
O coordenador da campanha vitoriosa acredita que o veto é resultante da precária realidade da educação no País, porém, segundo ele, a falta de um conteúdo programático estabelecido é também uma grande oportunidade para que o debate se amplie. “Não somente os educadores, mas os beneficiados e toda a sociedade civil devem discutir amplamente qual é a educação musical que serve ao Brasil hoje”, diz.
Para Carmen Mettig, vicepresidente da Associação dos Professores de Educação Musical da Bahia (Apemba) e diretora do Instituto de Educação Musical (IEM), a questão é bem preocupante.
“Isso é um escândalo, vamos perder a última possibilidade de acabarmos com esse analfabetismo musical, porque a música é um direito da criança.
Inclui, socializa, educa, disciplina, a música harmoniza, equilibra o sistema nervoso, trabalha o emocional, a sensibilidade”, diz ela ao ponderar que, em países como a Espanha, por exemplo, antes de a lei ser implementada, os professores tiveram dois anos de preparação.
“Tem que dar uma metodologia, um repertório, como se fazer.
Não para que fiquem todos presos a uma metodologia, mas para que todos saibam o caminho a ser tomado para que a coisa funcione”.
Segundo Carmn, o risco é reproduzir a atual situação do ensino das artes na educação básica.
“Com a instituição da educação artística, piorou a situação, porque um professor não pode saber de todas as áreas das artes, não pode ser ao mesmo tempo professor de teatro, de dança, de música e de artes plásticas”, diz.
ESPERANÇA – Felipe aposta em novas pedagogias para o enfrentamento da difícil realidade social do País. “Temos um tradição que começa com Villa-Lobos, mas tenho certeza de que a experiência do passado deve iluminar, mas não pode ser, de forma alguma, a totalidade da nova experiência”, afirma.
Para Daniela, o momento é de unir forças para que a nova lei atenda às expectativas. “Começamos, agora, uma outra etapa de envolvimento dos professores, dos pais, das escolas e de todas as áreas interessadas da sociedade.
A participação do povo brasileiro é muito importante para que consigamos garantir a qualidade dessa disciplina, que será ministrada nas escolas brasileiras.
É essencial que discutamos qual é a educação musical que interessa ao Brasil”, pontua.







2 comentários:
Boa tarde! Sou uma professora portuguesa do 1º ciclo e foi com muito interesse que li o seu artigo sobre música nas escolas. Penso que é logo desde os bancos da escola que se deve despertar nas crianças o gosto pela música. E isso pode ser feito através do ensino dos instrumentos (flauta, piano, etc.) mas também pelo simples acto de pô-las a ouvir música. Às quintas-feiras, arranjo sempre uma horinha para pôr música enquanto eles fazem artes plásticas. Aconselho os meus colegas a fazerem o mesmo! Deixo aqui duas sugestões na Internet: http://www.portalis.co.pt/tag/musicas-infantis/ e http://cotonete.clix.pt/. Vou continuar a seguir com atenção o seu blog. Adelina Costa
Essa forma de transmissão de sentimentos através das notas musicais é algo que transcende diversas barreiras e alcança gerações - muito importante, principalmente na formação dos jovéns. RGS.
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