quarta-feira, 2 de julho de 2008

O NOSSO MUNDO ERA CARIOCA

Por Francisco Silva Filho
x
A década de 70 para nós que tem entre quarenta e cinco e cinqüenta e cinco anos, foi para nós conquistenses, marcada pela moda carioca; seja pela penetração que tinha a Rádio Globo em nossos lares, ou a Rádio Nacional, a Super Rádio Tupy bem como, a recém inaugurada TV Globo que fazia contraponto à paulista TV Tupy. A década de 60 já era carregada por essa simpatia que todos os conquistenses tinham pelas coisas da Cidade Maravilhosa. A Cidade do Rio de Janeiro parecia exercer sobre nós mais que em qualquer outro baiano ou brasileiro um fascínio inigualável, o Rio parecia ser o centro do mundo para nós.

O cantor Gilberto Gil reforçava este nosso amor por um lugar tão fisicamente por nós desconhecido, mas, tão intimamente nossa cidade quanto Conquista sempre fora nossa. A sua música “Aquele Abraço” (O Rio de Janeiro continua lindo...) nos fez virar mais cariocas do que os próprios cariocas. Gostar das coisas da Cidade Maravilhosa fazia-nos fascinar pelos times do Vasco, do Flamengo, do Botafogo, do Ameriquinha, do Bangu, do Olaria, do São Cristóvão, entre outros tantos times; mas, nessa moda carioca que nos arrebatava, o Fluminense tocou forte em meu coração. Ele me transmitia um Rio de Janeiro muito diferente do que os meus companheiros de infância viam. Eu passei a torcer pelo Flu, não porque ele fosse à época o melhor clube, porque tivesse a maior torcida, ou porque fosse o time de maior apelo; mas, porque, ele tinha uma cara dos seletos, em Conquista não se via torcedores do Fluminense se envolvendo em discussões banais. O papo era outro, tinha a qualidade das músicas do Chico Buarque; tinha a descontração do seu também torcedor Evandro Mesquita, a picardia do Nelson Rodrigues, todos famosos torcedores do Fluminense.
Mas, o Rio de Janeiro não era só o futebol a nossa paixão. O Rio tinha um apelo nacional, era a capital de todos os cantores da música popular brasileira; no Rio morava do gaúcho Nelson Gonçalves à paraense Fafá de Belém. Os baianos mais ilustres da nossa música, todos foram morar na Cidade Maravilhosa, assumiram assim até a sua cidadania. Nas praias cariocas foram para os conquistenses mais abastados o local de seu batismo no mar. Para esses, conhecerem o mar teria que ser em grande estilo; Copacabana, Ipanema e Leblon seriam por assim entender um mergulho na fama. Tanto é que, uma conquistense que aqui não declinarei o seu nome, saiu da Rua João Pessoa para ser fotografada por O Globo, Jornal do Brasil e até revistas famosas, que registraram a primeira banhista fazendo topless em uma das suas praias famosas. Conhecer o Rio de Janeiro acaba por nos embriagar, e até cometermos atos como esse topless em época de governo ditatorial – o topless conquistense aconteceu em plena primavera de 1978 – alguém em Conquista se lembra disso, ou tomou conhecimento desse fato?
Como disse, a década de setenta foi carregada de emoções divinamente cariocas. Simplesmente ir ao Rio já significava um avanço cultural, estudar no Rio de Janeiro era equivalente, estudar em Paris. Morar na Cidade Maravilhosa era receber um certificado ISO da civilização; o sotaque dos cariocas para nós era música, havia em nossa cidade quem gostava de falar com sotaque que entendia ser carioca, bem como, usar também o carioquês. O Fascínio pela capital Fluminense perdurou até fins da década de oitenta; pouco a pouco nossos gostos foram mudando ou simplesmente se esmaecendo. As coisas da capital baiana e mineira hoje se misturam aos nossos gostos atuais, a música que hoje ouvimos nas nossas rádios não tem mais a poesia do chorinho e do samba cariocas tão bem cantadas por Dicró, Moreira da Silva e Manhoso. Os pagodes hoje não têm fronteiras, vem de todos os lugares, com os mais diversificados sotaques; perdemos o nosso referencial.
Uma linha ainda muito tênue nos sustenta pelo gosto aos times cariocas, não tem mais aquela paixão que nos movia, por exemplo, a sair de Conquista para assistir a uma final do campeonato carioca, o futebol brasileiro era o futebol carioca; por isso, digo que o futebol brasileiro acabou. A globalização do futebol foi a pá de cal que sepultou aquilo que era a paixão verdadeiramente nacional. Um registro que faço neste escrito: eu conheço este país de norte a sul, quase todas as capitais, todavia, eu não conheço a Cidade Maravilhosa, à época do encantamento eu não tive condições de fazê-lo; quando as coisas para mim se tornaram exeqüíveis, o Rio se tornou desinteressante. Mas, eu me contento com Rio de Janeiro do Chacrinha, o Rio de Janeiro da Terezinha, o Rio do Fio Maravilha, o Rio de Janeiro do Maracanã com 180 mil espectadores; o Rio do Aroldo de Andrade, o Rio da Guanabara, enfim, o Rio do Rio de Janeiro, Fevereiro e Março...

Aquele abraço,

Francisco Silva Filho – Curitiba-PR

Nenhum comentário: