domingo, 6 de julho de 2008

Máquina de camisinha levanta discussão sobre educação sexual nas escolas públicas




"Política de educação sexual ainda não é massiva nas escolas", diz Jorge Sacramento



Saymon Nascimento, do A TARDE


Parece um pequeno caixa eletrônico. Presa na parede, a caixa tem 30 quilos e um teclado numérico. O estudante digita a matrícula, a senha, e, em vez de dinheiro, a máquina libera uma camisinha. A partir de janeiro do ano que vem, 400 escolas públicas de ensino fundamental e médio de todo o país terão o equipamento - 14 deles na Bahia, de acordo com a Secretaria Estadual de Educação. A meta do Ministério da Saúde é estender a medida à totalidade da rede pública de ensino.

Os colégios baianos que receberão a máquina ainda não foram definidos, até porque a Secretaria de Educação não tem dados sobre o número de escolas que estão preparadas para tal "avanço". O diretor do Colégio Central, Jorge Nunes Sacramento, por exemplo, afirma que a unidade que comanda e outras escolas do estado não teriam condições de disponibilizar a camisinha no "caixa eletrônico".




"A política de educação sexual do governo ainda não chegou de forma massiva às escolas. Antes de qualquer medida, é preciso discussão, para que o sexo não pareça banal, com foco na proteção e na responsabilidade, mas com valores que não sejam moralistas ou hipócritas, como se o sexo fosse um problema. Não estamos mais nos anos 50. Isso passa por várias instâncias, desde a formação dos professores, conscientização da comunidade, até a elaboração dos livros didáticos", afirma Sacramento.

O diretor do Colégio afirma que o debate sobre o tema só foi levantado na unidade após a repercussão de um vídeo gravado com telfone celular, com imagens de dois estudantes fazendo sexo. "Esse fato mostrou como o assunto é mal tratado na escola, com preconceito contra a mulher e muito moralismo. Mostrou também o despreparo de alguns professores, que conduziram o assunto como se fosse caso de polícia".

Sacramento informa que um grupo foi formado para discutir a questão da educação sexual, e disse que a atitude poderia ser tomada por outras escolas, "enquanto a política do governo não vem".

A deficiência no ensino em algumas unidades é apontada também pelos estudantes. De acordo com Ticiane Santana, aluna do Colégio Landulfo Alves, na Calçada, os professores raramente abordam a questão da sexualidade em sala de aula. "Mesmo nas aulas de biologia, eles só tocam no assunto bem de vez em quando, e só fazem isso se o aluno perguntar", diz. No ano passado, Ticiane estudava na Colégio Castro Alves, também na Calçada, onde a realidade era diferente. "Lá havia educação sexual, muitas vezes com aulas específicas sobre o assunto".

Já o diretor de ensino do CEFET, Albertino Nascimento, sustenta que a unidade promove o debate entre seus alunos. De acordo com ele, na escola, que é mantida pelo governo federal, a educação sexual está integrada às aulas de biologia, além de ser promovida em palestras com especialistas. "A idéia é tornar o papo cotidiano na escola. Com isso, diminuímos bastante o número de casos de gravidez de adolescentes. Ano passado só tivemos uma aluna, e esse ano, nenhuma até agora", informa.

Nascimento é favorável à instalação das máquinas: "Não se pode fechar os olhos para a realidade de que a vida sexual do adolescente tomou um rumo difícil de inverter. Eles começam cada vez mais cedo. É preciso encarar de frente, educando a família e a escola para saberem lidar com essa situação. Isso exige medidas de prevenção, entre elas, a distribuição de camisinhas", defende.

Gestão - De acordo com a diretora do grupo gestor estadual do programa Saúde e prevenção nas escolas, Rosa Gaspar, a educação sexual no estado é tratada de duas formas: pela inclusão do tema no currículo, de maneira "transversal e interdispilinar", ou seja, relacionado a diversos assuntos estudados; e por meio de projetos sócio-educativos, com ações realizadas no turno oposto."A gente busca não apenas falar sobre sexo, mas dar encaminhamento médico e psicológico, caso o aluno precise. Nas palestras, os alunos são formados para trabalhar como multiplicadores", explica.

Quanto à implantação dos "caixas eletrônicos" de camisinha, a gestora disse que a secretaria está discutindo como o processo será conduzido. "Essas máquinas não vão cair de pára-quedas. Estamos fazendo tudo com muita cautela, definindo onde elas vão ficar e em quais colégios, privilegiando aqueles que já trabalham com educação sexual. A nossa intenção é preparar todos os 55 mil professores da rede estadual", diz.

Números - Em 2007, 49.928 mulheres entre 10 e 19 anos deram à luz na Bahia, representando 23,4% das mães do período. A porcentagem de mães adolescentes vem caindo nesta década. Em 2000, eram 26,4%. Também no ano passado, foram registrados 9 casos de AIDS na mesma faixa etária.

Com relação às outras doenças sexualmente transmissíveis em adolescentes, os dados mais recentes são de 2006. Foram 131 casos de sífilis, 442 de tricomoníase, 116 de hespes genital, 658 casos de condiloma, 43 de úlcera genital (excluindo herpes), 303 de corrimento cervical, 35 de sífilis em gestante, além de 1773 de outras DSTs sem especificação, de acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde.


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