sábado, 5 de julho de 2008

Com 50 anos e sem patrão


A niteroiense Elisa Rosa, de 52 anos, cercada por adesivos decorativos que começou a fabricar em 2006, depois que os filhos chegaram à universidade: "Não entrei no mercado para brincar. Montei uma empresa sem espaço para amadorismos, porque não tenho mais tempo a perder"


Da Veja

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O número de pessoas que abriram negócios quando já poderiam se aposentar (ou pensar em) dobrou desde 2001, com bons resultados: suas empresas faturam mais e têm vida acima da média nacional

Tradicionalmente, os 50 anos marcam o início da contagem regressiva para a aposentadoria – em especial no Brasil, onde o sistema previdenciário com base no tempo de contribuição permite que se deixe a labuta cedo, em comparação com o que acontece em países como Suécia e Inglaterra. Mas as estatísticas mostram que, ao longo desta década, o sonho de vestir o pijama e não ter hora para acordar vem sendo substituído pela vontade de escrever um novo capítulo na vida profissional. No Brasil, a virada dos cinqüentões é uma transformação palpitante do mercado de trabalho. Entre 2003 e 2007, esse foi o único grupo etário a aumentar sua participação na população ocupada, segundo a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que mede a cada mês o emprego nas seis principais regiões metropolitanas do país. Ao contrário da maioria dos trabalhadores, que tem a carteira assinada por uma empresa do setor privado, as pessoas com 50 anos procuram não ter patrão. De acordo com a mesma pesquisa, em abril passado um terço desse grupo atuava por conta própria. Outros 9% eram empregadores, praticamente o dobro do porcentual geral entre os brasileiros inseridos no mercado. Seja por falta de opção ou senso de oportunidade, eles se dão bem: a renda mensal dessa faixa etária é 34,5% maior que a da média.

No ano passado, 17,5% dos brasileiros à frente de negócios em estágio inicial tinham entre 45 e 54 anos, segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), estudo internacional que destrincha o nível dessa atividade em 42 países. Para se ter idéia do crescimento, em 2001 eles representavam apenas 7% do total. A etapa nacional da mesma pesquisa, coordenada pelo Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade, constatou que o país está entre os mais empreendedores do mundo: ficou em nono lugar no ranking que avalia o envolvimento da população adulta em novos negócios – à frente de Rússia, Índia e Japão, entre outros.

A niteroiense Elisa Santos Rosa, de 52 anos, contribuiu para essa estatística ao dar uma guinada em sua vida. Formada em psicologia, ela dedicou mais tempo à família que à profissão. Ao lado do marido, executivo de multinacional, viveu em Buenos Aires e, por fim, estabeleceu-se em São Paulo. Com os filhos na universidade, Elisa decidiu que era hora de trabalhar para valer. No fim de 2006, deparou com um produto que começava a fazer sucesso nos Estados Unidos, mas ainda era pouco conhecido no Brasil: o adesivo decorativo de paredes, criado para o consumidor que gosta de mudar o visual de casa com freqüência. Foi assim que surgiu a I.Stick, que hoje conta com quatro quiosques em shoppings, espaço próprio nas três lojas da rede paulista Etna e um bem-sucedido site de vendas, além de conceber decoração sob encomenda para empresas. O negócio começou a dar lucro no sétimo mês, muito antes do prazo previsto de dois anos. "Não entrei no mercado para brincar. Montei uma empresa sem espaço para amadorismo, porque não tenho mais tempo a perder", diz Elisa, que não descuida das metas e arregaça as mangas para limpar o chão e carregar caixas se for preciso.

A explicação para o fenômeno dos cinqüentões empresários está na combinação da inclinação dos brasileiros por empreender com o aumento da longevidade. Nos anos 1910, a expectativa de vida média no país era de 34 anos. Hoje, está em quase 73 anos. Atualmente, uma pessoa que chega aos 50 anos com saúde sabe que ainda terá muitos anos pela frente para fazer o que bem entender. "O brasileiro está vivendo mais e continua a ser empreendedor em todas as etapas da vida", diz Ricardo Tortorella, diretor do Sebrae São Paulo. Só em 2005, a instituição calcula que 20.847 pessoas com 50 anos ou mais abriram negócios no estado – 36% mais que em 2000. Essa disposição para trabalhar até mais tarde vem transformando o conceito de aposentadoria. "Até os anos 1960, ela era sinônimo de descanso. Passou a ser encarada como uma recompensa na década de 1970 e, nos anos 1980, como um direito. Hoje, é a oportunidade de recomeçar", diz David Baxter, da Age Wave, agência americana de pesquisa e consultoria focada no público sênior. Um estudo do grupo Merrill Lynch, feito nos Estados Unidos, confirma: 71% dos entrevistados querem manter algum tipo de trabalho na aposentadoria, e a maioria não cogita deixar o mercado por completo antes dos 70 anos. A decisão de permanecer na ativa pode traduzir-se numa velhice mais saudável. Muitos estudos relacionam a aposentadoria precoce ao encurtamento da vida, em decorrência de depressão, sedentarismo e stress causados pela mudança de rotina (para não falar da chatice crônica do pijamão, como sabem todos os que convivem com um desses em casa).

Empreender aos 50 tem algumas vantagens, mas se está sujeito às mesmas armadilhas de começar um negócio do zero em idade mais jovem. São erros comuns, entre todos os "calouros" do empreendedorismo, deixar de estudar o mercado em que se vai entrar ou não incluir no planejamento de gastos o montante necessário para o capital de giro. Mas adotar uma visão romantizada do negócio próprio é uma tentação a que o principiante de faixa etária mais avançada está especialmente exposto. Quem sonha com um bar ou uma pousada numa praia paradisíaca no fim da vida, em geral, não leva jeito para ser empresário. "Essa perspectiva não é compatível com um perfil empreendedor. É um grande erro acreditar que, por ser dono de um negócio, você vai levar uma vida mais calma", diz Paulo Veras, diretor da Endeavor, organização de incentivo a talentos empresariais do país. Encostar a barriga no balcão ou passar na empresa apenas alguns dias por semana são passos firmes na direção do fracasso. Inversamente, entrar num negócio preocupado apenas com o dinheiro que se vai ganhar, sem levar em conta o prazer que o trabalho pode proporcionar, é uma receita para a frustração.

Aos que estão convictos da oportunidade de mudar o rumo, e conscientes do desafio, resta ainda enfrentar o ceticismo alheio. Com três décadas de experiência no mercado financeiro, José Luiz Majolo, de 54 anos, foi tachado de maluco quando anunciou que largaria seu emprego. Explica-se: ele era vice-presidente do banco ABN Amro Real, posição que muita gente quer e da qual pouquíssimos teriam coragem de abrir mão – ainda mais para investir em um negócio "verde". Majolo passou meses desmentindo boatos sobre os motivos de seu desligamento, atribuído a desavenças e convites irrecusáveis da concorrência. No ano passado, ele criou a TerpenOil, fabricante de produtos de limpeza orgânicos e biodegradáveis e purificadores de ar, todos à base de uma substância natural extraída da laranja. "O país vive um momento mágico: o ambiente está favorável para tocar negócios e trabalhar com novas idéias. Por que não aproveitá-lo?", diz. A TerpenOil tem hoje clientes como o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e a Whirlpool (fabricante dos produtos Brastemp). Deve faturar 2,5 milhões de reais neste ano. Em 2011, Majolo pretende abrir o capital da empresa em bolsa.

Os componentes químicos da laranja nada têm a ver com a dinâmica de um banco, mas o empresário não era exatamente um marinheiro de primeira viagem: ele esteve à frente de ações socioambientais do Real. Segundo os experts, quanto mais domínio do ramo, maiores são as chances de um negócio dar certo. "O ideal é continuar numa área conhecida", afirma João Marcos Varella, consultor de carreiras da DBM, empresa especializada na transição de executivos, que mantém um núcleo para os que planejam montar empresas desde 2006. Além de serem frustrantes, decisões erradas doem mais no bolso de quem já não tem tanto tempo de refazer o capital para a velhice. A jogada do engenheiro capixaba Tito Moraes, 55 anos, foi arriscada. Em 2000, ele abriu uma distribuidora de cachaças artesanais, depois de aderir a um plano de demissão incentivada de uma subsidiária da Vale. Moraes nunca cogitou desistir do negócio, mas passou por maus bocados. Antes de descobrir que o melhor caminho era investir na distribuição, teve lojas e formatou uma franquia. "Ao longo do caminho, errei e acertei. No entanto, sempre usei minha maturidade para medir os passos que ia dar", diz. Sua empresa, a Tonel&Pinga, representa atualmente 300 rótulos da bebida e tem clientes de peso, como a rede de supermercados carioca Zona Sul. Desde 2003, vem crescendo entre 7% e 20% ao ano.

Quando a decisão de empreender não é apenas uma fantasia, os cinqüentões têm mais chance de sucesso que os mais novos. A Microsoft fez uma pesquisa na Inglaterra e constatou que 70% das empresas abertas por pessoas dessa faixa etária duram pelo menos três anos, enquanto apenas 28% das iniciadas pelos mais jovens têm a mesma longevidade. Isso porque os empresários de 50 anos, em geral, são cautelosos e estudam melhor a concorrência. Eles também costumam ter a seu favor o traquejo na gestão de pessoas e uma rede de contatos estabelecida ao longo da carreira, o chamado networking. De resto, é ter disposição para não desanimar com os obstáculos iniciais. Elisa Rosa dá a dica a quem planeja uma guinada como a dela: "Além de traçar metas de trabalho, é bom começar a fazer ginástica para agüentar o novo ritmo", diz ela, maratonista recém-convertida.



Donos do próprio nariz

n Os brasileiros com idade entre 45 e 54 anos à frente de negócios em estágio inicial representavam 7% do total em 2001. No ano passado, já eram 17,5%.

• O grupo com 50 anos ou mais foi o único a aumentar sua participação na população ocupada entre 2003 e 2007.

• 31% deles trabalham por conta própria. Na média de pessoas inseridas no mercado, esse porcentual é de 19%.

• Nessa faixa etária, 9% são empregadores, o que corresponde ao dobro da média da população ocupada em geral.

• 70% das empresas criadas e geridas por essas pessoas duram pelo menos três anos. Nas demais faixas, apenas 28% ultrapassam essa marca.

Fontes: Global Entrepreneurship Monitor, Microsoft e Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE




Para quem vai recomeçar

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O que pesa a favor

• O autoconhecimento. É mais improvável que se entre num negócio com o qual não se tenha afinidade.

• A rede de contatos que fez ao longo da vida, o chamado networking.

• As experiências passadas. Elas servem de referência antes de se decidir no que investir.

• O conhecimento acumulado. Ele resulta em maiores chances de o negócio dar certo.


O que pode pesar contra

• A visão romantizada. Se sonha com um café charmoso ou uma pousadinha, provavelmente você não tem veia empreendedora.

• A arrogância. O bom empreendedor deve fazer cursos e analisar permanentemente a concorrência – mesmo já sendo um profissional experiente.

• Excesso de ousadia. Não há expectativa de retorno que justifique raspar toda a sua reserva nessa etapa da vida.

Fontes: Age Wave e DBM Brasil


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