terça-feira, 1 de julho de 2008

ACADEMIA DO PAPO


Sete Sábios do interior de Conquista

O assunto sobre os nossos sábios despertou tanto interesse que resolvi fazer uma lista inicial - tipo balão de ensaio - dos Sete Sábios do interior de Conquista. Não adotei critérios científicos para a sua elaboração. Critérios científicos seriam aqueles baseados na História, na Sociologia, na Psicologia, na Antropologia, na Literatura, na Cultura Geral e por aí afora. Dispensei pesquisas de campo, questionários, entrevistas, escalas de atitude e/ou outros instrumentos de mensuração. Recusei tudo isso e tomei como base informações orais – confiáveis - sobre a nossa catingueirada. Um dos consultores foi Hidelbrando Oliveira, profundo conhecedor do assunto. Acrescento que expoentes de nossa cultura interiorana como Humberto Flores, José William de Oliveira Nunes e José Pedral Sampaio não foram consultados. Isto, por certo, promoverá dúvidas quanto à minha lista. De uma coisa, porém, podem estar certos, os catingueiros mencionados correm até o risco de não fazer parte de sua lista ou desagradar a de tantos outros, mas que são inteligentes, disso não há dúvida.


Vamos aos nomes: Sinhô Leite do Guigó, “Seu” Agripino do Bom Jardim, Mazinho do Cercadinho, Leone do Bate Pé, “Seu” Adezite da Boa Sorte, Dona Carolina do Pradoso e Vivi Mendes da Limeira. Claro que a cada um devo fazer pelo menos pequena referência. Todos estão vivos, têm atividades profissionais quotidianas e exercem, ao seu modo, intensa militância política e/ou profissional. O único nome que não exerce o seu ofício hoje é Dona Carolina do Pradoso, professora aposentada, porém nunca ausente para opinar sobre os problemas de sua comunidade.

Sinhô Leite é um velho conhecido e amigo (mas consta da lista não por causa disso). Trata-se de um catingueiro da mais alta estirpe. Suas ramificações familiares são verdadeiros tentáculos intermunicipais. Seja em Conquista, na Barra, Planalto, Lucaia ou outras vizinhanças, a gente encontra pessoas de sua árvore genealógica. Trata-se de um homem com muito saber, muita dignidade e uma visão moral do mundo que sensibiliza a todos. Tem uma conversa direta. Olha nos olhos das pessoas, não foge ao debate e dá risadas triunfantes quando observa que estamos fraquejando diante dos seus argumentos. Respeita a todos e adora rememorar coisas do seu amigo Jadiel Matos. Já passou dos oitenta anos, mas não parece. É um grande Homem!

“Seu” Agripino do Bom Jardim é outro catingueiro de boa cepa. Trabalha em sua propriedade com a dignidade dos melhores representantes do campo. Observa o mundo, tenta entendê-lo em sua complexidade e diz não aceitar tudo que passa na televisão (no que está muito certo). Está sempre aconselhando os mais jovens e aponta com o seu trabalho, o único caminho para transformação deste para um mundo melhor. Merece ser seguido em seus exemplos.

Mazinho do Cercadinho é uma figura interessante. O homem é um obstinado. Cavuca, futuca, corre atrás, vai à frente, fala de política, de clima, de sonhos, vem à Conquista, aponta erros da administração (respeitosamente) e não desiste nunca. As pessoas mais próximas adorariam vê-lo ocupando uma cadeira na Câmara de Vereadores (e ele também, claro). Há poucos dias encontrei-me com ele na Travessa Moderato Cardoso (onde ficava o Bar de Bilau) e deu para perceber sua agilidade, até na forma de andar. É um catingueiro despachado, cheio de idéias. Por isso, merecedor de nossa admiração.

Leone do Bate Pé é, dos catingueiros da lista, o mais intelectualizado. Poeta, pensador, reflete em seus versos preocupações com a problemática de sua comunidade. Apesar de sua liderança, não apresenta nenhum sinal de se tornar um homem engajado no processo político. Sabe traduzir com fidelidade todas as preocupações que afligem o povo e a região. Manter-se fora da política partidária parecer ser sua pedra filosofal. É um sábio. Compreendeu que política partidária (como a nossa) não eleva muito. Por isso, tá dentro da reivindicação administrativa, mas longe de partidos políticos.

Adezite da Boa Sorte, segundo Hidelbrando, parece ter o seu nome inspirado numa bula de remédio. Adezite. É um sujeito tranqüilo, também sem maiores intenções de ingressar na política. Mas não é nada alienado. Ao contrário, vê o gesto político como uma exaltação da civilidade. Na prática, entretanto, gosta mais da filosofia. Tá certo.

Dona Carolina, a professora do Pradoso, é uma figura excepcional. Sua dedicação ao ensino e aprendizagem, transformou-a em uma personalidade muito viva no coração de todos os catingueiros da região. Seus ensinamentos ajudaram muito na transformação sócio-econômica do seu povo. Os catingueiros do Pradoso são, a meu ver, os mais dinâmicos de todo o interior de Conquista. Quase todos possuem uma moto, um fusquinha, um meio de transporte. Fazem festas bonitas e têm um ar de independência que se percebe à distância. Creio que isso se deve muito à professora Carolina. Os seus ensinamentos e a sua atitude pessoal são exemplos de ânimo e mudança.

Por último, mas não menos importante encontramos esse grande catingueiro chamado Vivi Mendes. É uma lenda. Bondade, fraternidade e sinceridade são marcas da personalidade de Vivi Figueira Mendes. Sua visão simples de mundo combina com naturalidade seu lado aristocrático a uma força magnética de generosidade, resultando numa bela experiência humana. Se vivesse nos tempos bíblicos de Jacó, não tenho dúvida, seria um patriarca. Possui um eleitorado que aglutina desde as camadas menos favorecidas até as mais aquinhoadas de nossa sociedade. É impressionante o seu eleitorado. Por isso, é um sábio. Um abraço cordial e até a próxima. Paulo Pires
(*) Professor UESB-FAINOR

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