sexta-feira, 19 de junho de 2009

Resgatando a tradição do autêntico forró


Por Ezequiel Sena
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Há décadas o filósofo e sociólogo alemão Theodor Adorno (1903-1969), membro da Escola de Frankfurt, uma das maiores figuras pensantes do século XX, crítico severo dos modernos meios de comunicação de massa já alertava sobre a produção da cultura de consumo, cujo objetivo seria unicamente o lucro financeiro, a amortização da consciência e da verdadeira tradição popular – o fim da arte. De acordo com o seu pensamento, os pseudo-artistas estilizados industrialmente nada criam de belo, reproduzem apenas algo que vende, mas pobre em conteúdo. Por isso, não podem ser considerados legítimos artistas. A música tradicional não deve morrer ou cair no esquecimento em favor da ascensão do resquício que, em primeira mão, é valorizado pelos contratos, em detrimento da memória do próprio povo. Enquanto as cidades assistirem caladas a intensa proliferação desse tipo de cultura de massa a arte tende a desvanecer.

Trazendo para os dias de hoje e analisando as antevisões do pensador, ninguém melhor que os pernambucanos para começarem ditando as regras do que é melhor e mais correto para se preservar as tradições culturais do povo nordestino. Segundo eles, as comemorações do São João deste ano tentarão resgatar as raízes da música que mais entusiasma e alegra o norte e o nordeste do Brasil – o forró. Caruaru, a chamada capital forrozeira, região do Agreste, saiu na frente com regulamentação oficial e tudo mais que é de direito. A Fundação de Cultura do Município anunciou que os festejos juninos vão estar voltados para as tradições, com maior ênfase para o genuíno forró pé-de-serra. O forró estilizado está banido das apresentações. As contestações e a polêmica geradas em torno da medida dividiram opiniões. Enquanto isso, o clima de animosidade ferveu mais ainda quando os representantes da Cultura anunciaram que as “bandas apelativas” estavam fora da programação. “O São João daqui nasceu, se fortaleceu e cresceu através do forró autêntico, das bandas e dos verdadeiros artistas forrozeiros. Queremos resgatar essa tradição” explica o presidente da Fundação, José Pereira. “Não podemos repetir a vergonha do ano passado: uma integrante de uma banda chegou a tirar o sutiã. Em outra ocasião, um cantor mostrou as nádegas, além dos gestos obscenos exibidos durante as falas nos microfones” completou.
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O forró é o estilo musical mais popular e típico das festas nordestinas, principalmente nas comemorações juninas. Embora o nome forró é tido como palavra proveniente da língua inglesa “for all”, que quer dizer ‘para todos’, o folclorista Câmara Cascudo assegura que tem raiz afro-indígena e deriva da palavra ‘forrobodó’; outros garantem que tem forte influência européia, de maneira especial dos portugueses e holandeses, que é interpretado sob vários ritmos, como o baião, o xote, o xaxado, o coco e etc. Enquanto o baião é o preferido da maioria. Os mestres do assunto embelezam e filtram o tema jurando que o forró é a melodia e o baião é a coreografia. Apesar de ter se afastado bastante da sua real autenticidade, usufrui ainda de grandioso destaque na mídia de todos os cantos do norte e nordeste e alcança espaço no sul e sudeste, bem como internacionalmente.
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A essência da música do puro forró leva a chancela do seu principal representante – Luiz Gonzaga, conhecido e imortalizado Rei do Baião, insuperável na criação de ritmos – parceiro do grande compositor Humberto Teixeira, pai da atriz Denise Dumont, sua extensa obra enaltece a cultura brasileira em todos os sentidos. O carisma das músicas do Gonzagão, associado à rica poesia de Catulo da Paixão Cearense, Patativa do Assaré, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Lourival Batista, Job Patriota, Zé Limeira da Paraíba, Flávio José, Trio Nordestino e tantos outros contemporâneos... fizeram e fazem eternizar o ritmo da arte popular no nosso País e no mundo. Aquele forrozinho gostoso de ouvir, de se alegrar e de dançar onde a cadência da sanfona, da zabumba, do pandeiro e do triângulo é insubstituível. A melodia mais tocada nas rádios do Norte e Nordeste no período de abril a julho. E há algum tempo vem ganhando adeptos nas grandes capitais como é o caso de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, onde vários clubes e boites trazem como atração principal bandas forrozeiras.
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Atualmente a festa do tão venerado santo se transformou num espetáculo à parte para as tradições religiosas. Porém, ainda com a notoriedade do lado profano, o rumo das comemorações é bem atípico em muitas localidades, contudo, as comemorações de São João é um convite para que cada cristão se torne como João Batista, luz que abre os olhos alheios à presença de Jesus entre nós.
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Quer saber, até com as hostilidades que vem sendo despejadas por alguns conservadores mais exaltados contra as parafernálias das bandas, creio que essa briga é muito desigual e divide muito os conceitos. Combater o desenvolvimento da música industrializada julgo eu ser o mesmo que dar murros em ponta de faca; como não sou o dono da verdade, prefiro ficar com a frase do velho Lula – “há espaço pra todo mundo, basta somente disciplina”.

Ezequiel Sena

3 comentários:

  1. com um texto desses so pode vim mesmo desse grande amigo ezequiel,como foi bom ler e entender o que se quiz diser aqui,embora tamanho avanço em relaçao as bandas de forró atual é certo diser que logo logo so lembraremos da sanfona se ainda encontrarmos em algum lugar a foto do velho lula,pois estamos deixando de lado o velho e bom pé de serra sem falar no velho baiao,e sem falar nos antigos sao joaos onde dançavamos a noite inteira com musicas lindas e de bom gosto junto a nosos filhos,que saudade que saudade. ass.marcao.

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  2. Francisco Silva Filhosexta-feira, junho 19, 2009

    Zica, muito oportuna a sua crônica sobre o nosso "Forró Pé de Serra". Andou bem as Secretarias de Cultura das cidades de Caruarú e também a de Campina Grande na Paraíba que, impuseram com galhardia a defesa do velho e bom Forró Pé de Serra, espancando dessa maneira, qualquer forma de manifestação que seja considerada profana a cultura do Forró Nordestino. Buscar preservar as raízes culturais da nossa região serão sempre bem vindas. De parabens os Secretários e Autoridades envolvidas nesse resgate da "inocência e pureza da nossa cultura" e dizerem não à pornografia institucionalizada que tem caricaturado o nosso consagrado FORRÓ. Excelente a sua crônica, parabéns!

    Francisco Silva Filho

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  3. Boa, Ezequiel! Quase um ensaio.

    Abraço de J.P. Camillo Neri

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