
Por Francisco Silva Filho
O título desta crônica pode ser uma constatação cruel para milhões de brasileiros que se valem do transporte público para a sua locomoção para o trabalho ou outras atividades que exijam o uso do transporte coletivo. Curitiba pode ser considerada uma exceção quanto ao descaso que sofre o brasileiro em outros centros, - neste Brasil que tem mais de dois terços da população viajando diariamente dentro das suas próprias cidades e região metropolitana – onde, aqui os seus usuários são bem atendidos e não se dão por satisfeitos, pois, a melhoria do sistema de transporte coletivo é sempre uma meta a ser alcançada e reavaliada a cada seis meses.
O ex-prefeito e ex-governador Jaime Lerner em um seminário do qual eu participei, disse que o sistema de transporte de um município tem, necessariamente, a cara dos seus usuários; por isso, é que o transporte de massa da cidade curitibana havia sempre que ser reavaliado a cada seis meses, dessa forma, sempre se adaptando às exigências do exigente cidadão curitibano.
O sistema de transporte coletivo de Curitiba é um dos mais eficientes do Brasil, isso eu posso afirmar, pois, eu não conheço só Curitiba, conheço muitas capitais e principais cidades do interior; o que é comprovado por uma série de prêmios internacionais. O mais recente, concedido pela prestigiosa instituição inglesa Building and Social Housing Foundation, é apenas um exemplo. Outro é a classificação do sistema como "exemplar", feita pelo Worldwatch Institute, um dos maiores institutos de pesquisa ambiental dos Estados Unidos.
Implantado nos anos 70 com a preocupação de privilegiar o transporte de massa, o sistema é reconhecido por aliar baixo custo operacional e serviço de qualidade. Cerca de 1,9 milhão de passageiros são transportados diariamente, com um grau de satisfação de 89% dos usuários, segundo pesquisa da URBS (Urbanização de Curitiba S/A), empresa que gerencia o sistema.
O grande diferencial do transporte curitibano é dispor de tarifa integrada, (hoje custa R$ 2,20, o prefeito anunciou que baixará no dia 1º de maio para R$ 2,00) permitindo deslocamentos para toda a cidade pagando apenas uma passagem. Cada pessoa pode compor seu próprio percurso, já que o sistema é integrado por meio de Terminais e Estações-Tubos. Quem percorre trajetos longos, o que é mais comum entre a população de menor poder aquisitivo, é subsidiado por aqueles que realizam percursos menores. Calcula-se que diariamente 80% dos usuários sejam beneficiados pela integração. Atualmente, a RIT (Rede Integrada de Transporte) opera com 1.877 ônibus, realizando cerca de 21 mil viagens por dia, num total de 316 mil km a cada 24 horas.
Hoje o sistema está integrado com 12 municípios da Região Metropolitana: Almirante Tamandaré, Colombo, Pinhais, São José dos Pinhais, Araucária, Fazenda Rio Grande, Campo Magro, Campo Largo, Contenda, Rio Branco do Sul, Itaperuçu e Piraquara. A integração se dá por linhas convencionais, de ônibus metropolitanos, Expressos e Ligeirinhos, transportando diariamente cerca de 500 mil pessoas que residem ou trabalham nas cidades circunvizinhas. A partir de 1974, Curitiba passou a dispor do Sistema de Ônibus Expresso - o chamado à época de metrô de superfície com pneumáticos. Trata-se de uma solução inédita para ligação entre o centro e os bairros por vias exclusivas. Assim foi criado o sistema trinário de vias, que tem ao centro uma canaleta exclusiva para o Expresso, ladeada por duas vias de tráfego lento, em sentidos opostos. Paralelamente existem ainda duas ruas de tráfego rápido. A canaleta possibilita o aumento da velocidade média dos ônibus sem comprometer a segurança dos passageiros. Atualmente são 72 km de vias exclusivas, que cruzam a cidade nos sentidos Norte, Sul, Leste, Oeste e Sudeste (Boqueirão). Os grandes eixos são complementados por 270 km de linhas alimentadoras e 185 km de linhas interbairros. Somado às linhas convencionais, o sistema de transporte urbano de Curitiba cobre toda a área do município.
Pois muito bem, os dados acima foram conseguidos no site da URBS e não acrescentam nada que eu já não soubesse, todavia, como é praxe minha tudo que eu escrevo tem base em fontes fidedignas e nunca em achômetros. Mas, uma coisa eu pude depreender da fala do Jaime Lerner em nosso seminário no ano 2001 no Centro de Convenções; ele dizia da cara do usuário do transporte urbano curitibano. Realmente, aqui na capital paranaense, o transporte coletivo é utilizado por quase todos curitibanos; é comum encontrarmos fazendo uso do transporte coletivo pessoas ricas, políticos e até mesmo empresários que deixam em casa o seu carro para se dirigirem ao trabalho de ônibus. No sábado dia 18 deste mês, eu resolvi ir ao centro, e optei por ir de ônibus, quando desembarquei no Terminal do Carmo para fazer conexão para o centro, entrei em um ônibus do tipo “Ligeirinho” e, sentado em um banco como qualquer outro usuário de transporte coletivo, estava o deputado federal Maurício Fruet e, diga-se de passagem, não estava lá fazendo pose e fotografias demagógicas não! É verdade, que ele devia estar acompanhado por algum agente de segurança, entretanto, se estava não era ostensiva a presença. O deputado estadual petista, meu colega de banco o Tadeu Veneri não deixa de usar o transporte coletivo para as suas mais simples atividades.
E em Vitória da Conquista? Será que a população classe “A” faz uso do transporte coletivo? Se alguém me responder que sim, eu vou dizer que “vocês não estão querendo que eu volte”! (referência ao personagem do Jô Soares ao exilado brasileiro na França – Waldir Pires). A dura realidade dessa constatação nos faz crer, que o povo usuário do transporte coletivo conquistense tem força para eleger, todavia, não tem força para cobrar e tampouco exigir nada do poder público.
Um Juiz do Mato Grosso do Sul teve uma ideia prá lá de controversa, e propôs mudança na legislação eleitoral, onde, o voto popular teria uma graduação conforme a formação do eleitor. No caso do eleitor analfabeto, este estaria proibido de votar, os demais, conforme a sua formação, valeria 1 ponto só quem tem alfabetização; 2 pontos quem tem ensino fundamental; 3 pontos quem tem ensino médio, e assim por diante. Na prática, isso já acontece, para eleger os votos são iguais; mas para cobrar, vale mais os votos dos ricos e dos mais aquinhoados.
O transporte coletivo em uma cidade é fruto de uma construção filosófica, faz parte de uma cultura; em Curitiba o transporte coletivo não foi criado na década de sessenta como se sugere no início da minha crônica, mas, sim, no início do século XX, onde, protótipos de bondes articulados já faziam o transporte dos curitybanos. E na nossa Vitória da Conquista, qual foi o projeto de implantação de transporte coletivo, alguém sabe? Eu mesmo acho que posso responder. No início era uma empresa que começou a circular no ano – se não estou enganado – de 1966, a Suburbana com aquelas Cata-Nicas Jardineiras com o cano de descarga levantada para cima na traseira (cata-níqueis), e depois ela veio a sofrer a concorrência das Kombis TRANSRÁPIDO do Dr. Gesiel Norberto. Em resumo, o transporte coletivo conquistense cresceu como cresceu a cidade; sem qualquer planejamento. O que se tem hoje servindo os conquistenses é, na verdade, uma consequência de uma balbúrdia institucionalizada a qual o poder público, historicamente fecha os olhos, pois, os principais usuários são aqueles a quem eles não querem mais ver antes do próximo período eleitoral.
Francisco Silva Filho – Curitiba-PR
O ex-prefeito e ex-governador Jaime Lerner em um seminário do qual eu participei, disse que o sistema de transporte de um município tem, necessariamente, a cara dos seus usuários; por isso, é que o transporte de massa da cidade curitibana havia sempre que ser reavaliado a cada seis meses, dessa forma, sempre se adaptando às exigências do exigente cidadão curitibano.
O sistema de transporte coletivo de Curitiba é um dos mais eficientes do Brasil, isso eu posso afirmar, pois, eu não conheço só Curitiba, conheço muitas capitais e principais cidades do interior; o que é comprovado por uma série de prêmios internacionais. O mais recente, concedido pela prestigiosa instituição inglesa Building and Social Housing Foundation, é apenas um exemplo. Outro é a classificação do sistema como "exemplar", feita pelo Worldwatch Institute, um dos maiores institutos de pesquisa ambiental dos Estados Unidos.
Implantado nos anos 70 com a preocupação de privilegiar o transporte de massa, o sistema é reconhecido por aliar baixo custo operacional e serviço de qualidade. Cerca de 1,9 milhão de passageiros são transportados diariamente, com um grau de satisfação de 89% dos usuários, segundo pesquisa da URBS (Urbanização de Curitiba S/A), empresa que gerencia o sistema.
O grande diferencial do transporte curitibano é dispor de tarifa integrada, (hoje custa R$ 2,20, o prefeito anunciou que baixará no dia 1º de maio para R$ 2,00) permitindo deslocamentos para toda a cidade pagando apenas uma passagem. Cada pessoa pode compor seu próprio percurso, já que o sistema é integrado por meio de Terminais e Estações-Tubos. Quem percorre trajetos longos, o que é mais comum entre a população de menor poder aquisitivo, é subsidiado por aqueles que realizam percursos menores. Calcula-se que diariamente 80% dos usuários sejam beneficiados pela integração. Atualmente, a RIT (Rede Integrada de Transporte) opera com 1.877 ônibus, realizando cerca de 21 mil viagens por dia, num total de 316 mil km a cada 24 horas.
Hoje o sistema está integrado com 12 municípios da Região Metropolitana: Almirante Tamandaré, Colombo, Pinhais, São José dos Pinhais, Araucária, Fazenda Rio Grande, Campo Magro, Campo Largo, Contenda, Rio Branco do Sul, Itaperuçu e Piraquara. A integração se dá por linhas convencionais, de ônibus metropolitanos, Expressos e Ligeirinhos, transportando diariamente cerca de 500 mil pessoas que residem ou trabalham nas cidades circunvizinhas. A partir de 1974, Curitiba passou a dispor do Sistema de Ônibus Expresso - o chamado à época de metrô de superfície com pneumáticos. Trata-se de uma solução inédita para ligação entre o centro e os bairros por vias exclusivas. Assim foi criado o sistema trinário de vias, que tem ao centro uma canaleta exclusiva para o Expresso, ladeada por duas vias de tráfego lento, em sentidos opostos. Paralelamente existem ainda duas ruas de tráfego rápido. A canaleta possibilita o aumento da velocidade média dos ônibus sem comprometer a segurança dos passageiros. Atualmente são 72 km de vias exclusivas, que cruzam a cidade nos sentidos Norte, Sul, Leste, Oeste e Sudeste (Boqueirão). Os grandes eixos são complementados por 270 km de linhas alimentadoras e 185 km de linhas interbairros. Somado às linhas convencionais, o sistema de transporte urbano de Curitiba cobre toda a área do município.
Pois muito bem, os dados acima foram conseguidos no site da URBS e não acrescentam nada que eu já não soubesse, todavia, como é praxe minha tudo que eu escrevo tem base em fontes fidedignas e nunca em achômetros. Mas, uma coisa eu pude depreender da fala do Jaime Lerner em nosso seminário no ano 2001 no Centro de Convenções; ele dizia da cara do usuário do transporte urbano curitibano. Realmente, aqui na capital paranaense, o transporte coletivo é utilizado por quase todos curitibanos; é comum encontrarmos fazendo uso do transporte coletivo pessoas ricas, políticos e até mesmo empresários que deixam em casa o seu carro para se dirigirem ao trabalho de ônibus. No sábado dia 18 deste mês, eu resolvi ir ao centro, e optei por ir de ônibus, quando desembarquei no Terminal do Carmo para fazer conexão para o centro, entrei em um ônibus do tipo “Ligeirinho” e, sentado em um banco como qualquer outro usuário de transporte coletivo, estava o deputado federal Maurício Fruet e, diga-se de passagem, não estava lá fazendo pose e fotografias demagógicas não! É verdade, que ele devia estar acompanhado por algum agente de segurança, entretanto, se estava não era ostensiva a presença. O deputado estadual petista, meu colega de banco o Tadeu Veneri não deixa de usar o transporte coletivo para as suas mais simples atividades.
E em Vitória da Conquista? Será que a população classe “A” faz uso do transporte coletivo? Se alguém me responder que sim, eu vou dizer que “vocês não estão querendo que eu volte”! (referência ao personagem do Jô Soares ao exilado brasileiro na França – Waldir Pires). A dura realidade dessa constatação nos faz crer, que o povo usuário do transporte coletivo conquistense tem força para eleger, todavia, não tem força para cobrar e tampouco exigir nada do poder público.
Um Juiz do Mato Grosso do Sul teve uma ideia prá lá de controversa, e propôs mudança na legislação eleitoral, onde, o voto popular teria uma graduação conforme a formação do eleitor. No caso do eleitor analfabeto, este estaria proibido de votar, os demais, conforme a sua formação, valeria 1 ponto só quem tem alfabetização; 2 pontos quem tem ensino fundamental; 3 pontos quem tem ensino médio, e assim por diante. Na prática, isso já acontece, para eleger os votos são iguais; mas para cobrar, vale mais os votos dos ricos e dos mais aquinhoados.
O transporte coletivo em uma cidade é fruto de uma construção filosófica, faz parte de uma cultura; em Curitiba o transporte coletivo não foi criado na década de sessenta como se sugere no início da minha crônica, mas, sim, no início do século XX, onde, protótipos de bondes articulados já faziam o transporte dos curitybanos. E na nossa Vitória da Conquista, qual foi o projeto de implantação de transporte coletivo, alguém sabe? Eu mesmo acho que posso responder. No início era uma empresa que começou a circular no ano – se não estou enganado – de 1966, a Suburbana com aquelas Cata-Nicas Jardineiras com o cano de descarga levantada para cima na traseira (cata-níqueis), e depois ela veio a sofrer a concorrência das Kombis TRANSRÁPIDO do Dr. Gesiel Norberto. Em resumo, o transporte coletivo conquistense cresceu como cresceu a cidade; sem qualquer planejamento. O que se tem hoje servindo os conquistenses é, na verdade, uma consequência de uma balbúrdia institucionalizada a qual o poder público, historicamente fecha os olhos, pois, os principais usuários são aqueles a quem eles não querem mais ver antes do próximo período eleitoral.
Francisco Silva Filho – Curitiba-PR
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