Carcará na Olívia Flores
Na virada do ano a primeira pessoa conhecida que encontrei foi Bebeto, neto de um dos nossos primeiros médicos, Dr. Nicanor Ferreira (temos um posto de saúde com o seu nome ali próximo á ex-casa de Zé Pequeno). Pois foi assim que comecei 2009: Encontrando-me com Bebeto, velho amigo de muitas caminhadas, filho de seu Palmirênio e Dona Marialva, históricos moradores da Rua dos Fonsecas, vizinhos da TV Sudoeste. Cumprimentamo-nos pela entrada do Ano Novo e ali mesmo nos despedimos cada um para sua banda.
Confesso que fiz a besteira de à tarde cometer aqueles velhos excessos e, portanto, minha noite de reveillon se resumiu a um jantar comedido adicionado a dois copos de refrigerante. Só isso. Depois da pança cheia, voltei para casa, escovei dente e dormi feito um passarinho até as nove da matina.
Levantei, tomei banho, vesti a roupa e saí correndo para ir ao enterro do nosso Luisão. Passei rapidamente pela Olívia Flores e eis que encontro casualmente ninguém mais ninguém menos que o grande Carcará. Sim senhor, Carcará em carne e osso. Mais carne do que osso (ou seria o inverso?).
Perguntei ao ilustre personagem o que levava em mãos e ele com a cara mais tranqüila do mundo disse que estava com umas coisinhas prá vender. Falei: Mas, em pleno 1º de janeiro? Ele respondeu: É a partir do primeiro dia do ano que devemos começar a ganhar dinheiro. Dei-lhe razão. Ele só não foi feliz em relação a mim porque os produtos que trazia não me interessam muito: dois pés de ferro, meia dúzia de martelos e alguns alicates. Tirando os pés de ferro, o resto eu tenho de sobra.
Também me despedi dele e fui cumprir minha obrigação. Antes de chegar à Capelinha do São Vicente, deparei com dois amigos de infância. Ambos tinham dado o famoso virote e, não posso esconder, estavam prá lá de Bagdá às 10 da manhã em um dos quiosques da bela Praça Hercílio Lima. Reconheceram-me de longe (mesmo chumbados). Convidaram-me para entrar na farra e eu percebi que o convite tinha o propósito de “socializar” a cachaça. Para me esquivar, agradeci, mas me senti na obrigação de pagar quatro cervejas para aplacar os seus ímpetos. Depois disso, senti que ficaram mais tranqüilos. Queriam saber para onde eu ia, mas desconversei. Insistiam em me acompanhar. Dei um quebra neles e finalmente consegui chegar a Capelinha. Por volta das 11 horas levamos Luis para o sepultamento e na volta fiquei pensando nas palavras de Carcará: “Começar a ganhar dinheiro no primeiro dia do ano”. Nunca pensei nisso. Prá ser sincero, nem no decorrer do ano penso nisso e agora creio: é por esse motivo que nunca o tenho.
Mas Carcará estava todo elegante. Calça branca de linho, camisa social vermelha e um par de óculos ray-ban todo invocado. A elegância do nosso personagem estava merecendo a atenção de todos os transeuntes da Olívia. Também pudera, com aquele vermelhão na camisa e aquela brancura na calça e mais os penduricalhos que trazia em mãos, era prá ser notado por todos.
É admirável esse Carcará. Há pelo menos uns quarenta e cinco anos temos sua imagem vendendo mercadorias (Olha a feijoada!) com a elegância de sempre. Não sei se ele está registrado na Previdência Social (para aposentadoria) se é contribuinte na Receita Federal ou qual é o seu enquadramento tributário naquele Órgão. Uma coisa é certa: Sua vida é merecedora de nosso respeito.
Ao iniciar 2009, quero manifestar meu apreço a seres humanos como ele. Honesto, trabalhador e independente. Consciente de que leva uma vida digna, Carcará continua simples como todos deveríamos ser. Pelo seu intermédio verificam-se três aspectos importantes para uma existência tranquila: Arrogância zero, vaidade nenhuma e auto-suficiência inexistente. Ele tem isso. Perguntei-lhe como se sentia pelo tipo de vida que escolheu. Ele respondeu: Ótimo! E filosofando arrematou: “Vivo na glória de Deus. A dos homens aqui na terra é passageira”. Acabei de ouvir as palavras do meu interlocutor e me lembrei de um livro do mestre Álvaro Lins: “A glória de César e o punhal de Brutos”. Nesta obra, mestre Lins, um dos grandes de nossa crítica literária, fala sobre a transitoriedade da glória terrestre. Feliz Ano Novo e um abraço cordial para todos. Até a próxima. Fiquemos com a glória de Deus (esqueçamos a de César) e longe, o mais longe possível, do punhal de Brutos. Salve Carcará!
Paulo Pires
(*) Professor UESB-FAINOR.
Na virada do ano a primeira pessoa conhecida que encontrei foi Bebeto, neto de um dos nossos primeiros médicos, Dr. Nicanor Ferreira (temos um posto de saúde com o seu nome ali próximo á ex-casa de Zé Pequeno). Pois foi assim que comecei 2009: Encontrando-me com Bebeto, velho amigo de muitas caminhadas, filho de seu Palmirênio e Dona Marialva, históricos moradores da Rua dos Fonsecas, vizinhos da TV Sudoeste. Cumprimentamo-nos pela entrada do Ano Novo e ali mesmo nos despedimos cada um para sua banda.
Confesso que fiz a besteira de à tarde cometer aqueles velhos excessos e, portanto, minha noite de reveillon se resumiu a um jantar comedido adicionado a dois copos de refrigerante. Só isso. Depois da pança cheia, voltei para casa, escovei dente e dormi feito um passarinho até as nove da matina.
Levantei, tomei banho, vesti a roupa e saí correndo para ir ao enterro do nosso Luisão. Passei rapidamente pela Olívia Flores e eis que encontro casualmente ninguém mais ninguém menos que o grande Carcará. Sim senhor, Carcará em carne e osso. Mais carne do que osso (ou seria o inverso?).
Perguntei ao ilustre personagem o que levava em mãos e ele com a cara mais tranqüila do mundo disse que estava com umas coisinhas prá vender. Falei: Mas, em pleno 1º de janeiro? Ele respondeu: É a partir do primeiro dia do ano que devemos começar a ganhar dinheiro. Dei-lhe razão. Ele só não foi feliz em relação a mim porque os produtos que trazia não me interessam muito: dois pés de ferro, meia dúzia de martelos e alguns alicates. Tirando os pés de ferro, o resto eu tenho de sobra.
Também me despedi dele e fui cumprir minha obrigação. Antes de chegar à Capelinha do São Vicente, deparei com dois amigos de infância. Ambos tinham dado o famoso virote e, não posso esconder, estavam prá lá de Bagdá às 10 da manhã em um dos quiosques da bela Praça Hercílio Lima. Reconheceram-me de longe (mesmo chumbados). Convidaram-me para entrar na farra e eu percebi que o convite tinha o propósito de “socializar” a cachaça. Para me esquivar, agradeci, mas me senti na obrigação de pagar quatro cervejas para aplacar os seus ímpetos. Depois disso, senti que ficaram mais tranqüilos. Queriam saber para onde eu ia, mas desconversei. Insistiam em me acompanhar. Dei um quebra neles e finalmente consegui chegar a Capelinha. Por volta das 11 horas levamos Luis para o sepultamento e na volta fiquei pensando nas palavras de Carcará: “Começar a ganhar dinheiro no primeiro dia do ano”. Nunca pensei nisso. Prá ser sincero, nem no decorrer do ano penso nisso e agora creio: é por esse motivo que nunca o tenho.
Mas Carcará estava todo elegante. Calça branca de linho, camisa social vermelha e um par de óculos ray-ban todo invocado. A elegância do nosso personagem estava merecendo a atenção de todos os transeuntes da Olívia. Também pudera, com aquele vermelhão na camisa e aquela brancura na calça e mais os penduricalhos que trazia em mãos, era prá ser notado por todos.
É admirável esse Carcará. Há pelo menos uns quarenta e cinco anos temos sua imagem vendendo mercadorias (Olha a feijoada!) com a elegância de sempre. Não sei se ele está registrado na Previdência Social (para aposentadoria) se é contribuinte na Receita Federal ou qual é o seu enquadramento tributário naquele Órgão. Uma coisa é certa: Sua vida é merecedora de nosso respeito.
Ao iniciar 2009, quero manifestar meu apreço a seres humanos como ele. Honesto, trabalhador e independente. Consciente de que leva uma vida digna, Carcará continua simples como todos deveríamos ser. Pelo seu intermédio verificam-se três aspectos importantes para uma existência tranquila: Arrogância zero, vaidade nenhuma e auto-suficiência inexistente. Ele tem isso. Perguntei-lhe como se sentia pelo tipo de vida que escolheu. Ele respondeu: Ótimo! E filosofando arrematou: “Vivo na glória de Deus. A dos homens aqui na terra é passageira”. Acabei de ouvir as palavras do meu interlocutor e me lembrei de um livro do mestre Álvaro Lins: “A glória de César e o punhal de Brutos”. Nesta obra, mestre Lins, um dos grandes de nossa crítica literária, fala sobre a transitoriedade da glória terrestre. Feliz Ano Novo e um abraço cordial para todos. Até a próxima. Fiquemos com a glória de Deus (esqueçamos a de César) e longe, o mais longe possível, do punhal de Brutos. Salve Carcará!
Paulo Pires
(*) Professor UESB-FAINOR.







2 comentários:
kkkkkkkkkkkkkk
Muito bom, Paulo!! Suas crônicas são as melhores! Somos privilegiados e não sabemos...
MINHA NOITE DE REVEILLON FOI BOA. ASSISTI O FILME "QUEM VAI FICAR COM MERY".
Nao sabia que o nome dele é carcará. Outro dia encontrei com ele fiquei preocupada com o peso que ele leva. Mas conversando vi que ele estava feliz.Achei ele gente boa.
Ele tá certo qdo diz "VIVO NA GLORIA DE DEUS, PORQUE A DOS hOMENS É PASSAGEIRA".
FELIZ 2009!
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