“A ditadura vai acabar, nós não”
Em 27 de março de 1981, a Tribuna da Imprensa, um dos jornais mais combativos do regime militar estampava em letras graúdas a manchete acima. Isso mesmo: “A ditadura vai acabar, nós não”. O autor da manchete, como não poderia deixar de ser foi o grande jornalista - um dos maiores do Brasil em todos os tempos - Hélio Fernandes. Os termos colocados pelo nosso Hélio eram prá anunciar que um País como o nosso poderia sofrer até alguns reveses quanto à prática política, mas nossa vocação natural é conviver em regime democrático. Dito e feito. A ditadura foi pro brejo e hoje se respira no Brasil um clima de convivência harmoniosa entre sociedade civil, executivo, judiciário e legislativo que dá ao brasileiro uma liberdade como há muito não vivia. Bem vinda seja para sempre a democracia.
Tudo bem, tudo bem. Só há um pequeno senão: A Tribuna da Imprensa fechou. Sim. Isso mesmo. No inicio de dezembro de 2008, a última grande trincheira do jornalismo impresso e independente do Brasil chamada de Tribuna da Imprensa, se despediu dos leitores. E tão grave quanto o seu fechamento, foi o silêncio dos demais órgãos da nossa grande mídia. Não vi nada na Folha de São Paulo, idem no Estadão, Jornal do Brasil, etc. As revistas Veja e Isto é não deram nem tchum. A revista Época da Globo nem se tocou e prá não dizer que todos se calaram, a Carta Capital, de outro grande ícone de nossa imprensa [Mino Carta] se manifestou lamentando em editorial o fechamento do combativo jornal carioca. Pois é com grande tristeza que escrevemos essa pequena crônica. O fechamento de um jornal, a saída de uma emissora de rádio do ar e a ausência de um veículo de comunicação impedido de se expressar, promove sérios danos à sociedade, ao ponto de desarticulá-la quanto à capacidade de análise objetiva em relação ao seu processo civilizatório. É uma tragédia.
Quer dizer que um jornal como a Tribuna da Imprensa fecha e ninguém dá um pio? Li uma carta do Sr. Fernando Collor de Mello (Deus me perdoe por mencionar esse nome), onde o ex-presidente diz lamentar o fechamento do grande jornal brasileiro. Algumas das mais eminentes personalidades do País também se pronunciaram na mesma direção.
O fato é que a Tribuna fechou. E fechou por quê? Fechou porque estava atolada em dívidas e processos contra poderosos. Os mesmos que sistematicamente “arrebentam” os cofres do País, e que sempre saem ilesos de suas falcatruas. Pois foram esses que fizeram tudo para que o imparcial jornal fosse tragado pelas águas barrentas da sujeira nacional.
Hélio, Publisher da Tribuna e irmão do genial Millôr Fernandes, começou a trabalhar em 1936. Praticamente criança, ou melhor, adolescente. Mas, tal qual o irmão, demonstrava um senso de profissionalismo excepcional. Iniciou como uma espécie de office-boy de Dario de Almeida Magalhães, pai de Raphael, político e ex-ministro da Nova República. Imaginem vocês, dois rapazotes trabalhando no meio das feras que Chateaubriand possuía em suas redações. Os dois eram esses mesmos: os irmãos Hélio e Millôr. Eram tão encapetados que na redação de O Cruzeiro, aproveitavam as saídas que Nelson Rodrigues dava para ir ao banheiro, sentavam-se (ora um, ora outro) na mesa do grande dramaturgo e escreviam algumas dezenas de linhas no texto que o autor de Vestido de Noiva estava escrevendo. Nelson quando voltava, olhava para a lauda e sentia alguma coisa estranha, mas gostava, olhava para os dois “capetas”, acendia um cigarro e dava sua famosa e abafada risada (posteriormente copiado por telepatia pelo nosso Carlos Jeová).
Hélio tem uma admiração profunda pelo irmão. E repete com o humor de sempre: “Meu maior inimigo aqui na Terra é o meu irmão Millôr. E completa: O cara é tão genial que eu jamais deixarei de ser o irmão dele. Tudo que faço é inferior ao que ele faz”. Millôr o repreende e diz que ele é que se sente orgulhoso de ter como irmão um jornalista que nunca se dobrou para filho da mãe nenhum.
Hélio Fernandes, o homem da Tribuna e dos processos políticos. Apesar de tudo, ele se sente feliz. Também pudera: quando estava encrencado com o governo militar, sempre teve ao lado uns advogadozinhos meio tigela como Prudente de Moraes, neto, Adauto Lúcio Cardoso, José Eduardo Prado Kelly e o mais admirado de todos: doutor Sobral Pinto. Será que andava mal acompanhado nosso Hélio? Para encerrar, diria que o senhor Luiz Gurshinken foi muito maldoso em relação ao grande jornalista. E, em que pese minha admiração pelo Sr. Lula da Silva, não posso deixar de dizer que Hélio está magoado com o nosso Presidente. Em minha opinião também acho que Lula não foi correto. Se ele, Lula, hoje está na crista da onda, deveria reconhecer historicamente o esforço de jornalistas e homens públicos como Hélio Fernandes. Oremos pelo retorno da Tribuna da Imprensa. Um abraço cordial e até a próxima.
Paulo Pires
(*) Professor UESB-FAINOR.
Em 27 de março de 1981, a Tribuna da Imprensa, um dos jornais mais combativos do regime militar estampava em letras graúdas a manchete acima. Isso mesmo: “A ditadura vai acabar, nós não”. O autor da manchete, como não poderia deixar de ser foi o grande jornalista - um dos maiores do Brasil em todos os tempos - Hélio Fernandes. Os termos colocados pelo nosso Hélio eram prá anunciar que um País como o nosso poderia sofrer até alguns reveses quanto à prática política, mas nossa vocação natural é conviver em regime democrático. Dito e feito. A ditadura foi pro brejo e hoje se respira no Brasil um clima de convivência harmoniosa entre sociedade civil, executivo, judiciário e legislativo que dá ao brasileiro uma liberdade como há muito não vivia. Bem vinda seja para sempre a democracia.
Tudo bem, tudo bem. Só há um pequeno senão: A Tribuna da Imprensa fechou. Sim. Isso mesmo. No inicio de dezembro de 2008, a última grande trincheira do jornalismo impresso e independente do Brasil chamada de Tribuna da Imprensa, se despediu dos leitores. E tão grave quanto o seu fechamento, foi o silêncio dos demais órgãos da nossa grande mídia. Não vi nada na Folha de São Paulo, idem no Estadão, Jornal do Brasil, etc. As revistas Veja e Isto é não deram nem tchum. A revista Época da Globo nem se tocou e prá não dizer que todos se calaram, a Carta Capital, de outro grande ícone de nossa imprensa [Mino Carta] se manifestou lamentando em editorial o fechamento do combativo jornal carioca. Pois é com grande tristeza que escrevemos essa pequena crônica. O fechamento de um jornal, a saída de uma emissora de rádio do ar e a ausência de um veículo de comunicação impedido de se expressar, promove sérios danos à sociedade, ao ponto de desarticulá-la quanto à capacidade de análise objetiva em relação ao seu processo civilizatório. É uma tragédia.
Quer dizer que um jornal como a Tribuna da Imprensa fecha e ninguém dá um pio? Li uma carta do Sr. Fernando Collor de Mello (Deus me perdoe por mencionar esse nome), onde o ex-presidente diz lamentar o fechamento do grande jornal brasileiro. Algumas das mais eminentes personalidades do País também se pronunciaram na mesma direção.
O fato é que a Tribuna fechou. E fechou por quê? Fechou porque estava atolada em dívidas e processos contra poderosos. Os mesmos que sistematicamente “arrebentam” os cofres do País, e que sempre saem ilesos de suas falcatruas. Pois foram esses que fizeram tudo para que o imparcial jornal fosse tragado pelas águas barrentas da sujeira nacional.
Hélio, Publisher da Tribuna e irmão do genial Millôr Fernandes, começou a trabalhar em 1936. Praticamente criança, ou melhor, adolescente. Mas, tal qual o irmão, demonstrava um senso de profissionalismo excepcional. Iniciou como uma espécie de office-boy de Dario de Almeida Magalhães, pai de Raphael, político e ex-ministro da Nova República. Imaginem vocês, dois rapazotes trabalhando no meio das feras que Chateaubriand possuía em suas redações. Os dois eram esses mesmos: os irmãos Hélio e Millôr. Eram tão encapetados que na redação de O Cruzeiro, aproveitavam as saídas que Nelson Rodrigues dava para ir ao banheiro, sentavam-se (ora um, ora outro) na mesa do grande dramaturgo e escreviam algumas dezenas de linhas no texto que o autor de Vestido de Noiva estava escrevendo. Nelson quando voltava, olhava para a lauda e sentia alguma coisa estranha, mas gostava, olhava para os dois “capetas”, acendia um cigarro e dava sua famosa e abafada risada (posteriormente copiado por telepatia pelo nosso Carlos Jeová).
Hélio tem uma admiração profunda pelo irmão. E repete com o humor de sempre: “Meu maior inimigo aqui na Terra é o meu irmão Millôr. E completa: O cara é tão genial que eu jamais deixarei de ser o irmão dele. Tudo que faço é inferior ao que ele faz”. Millôr o repreende e diz que ele é que se sente orgulhoso de ter como irmão um jornalista que nunca se dobrou para filho da mãe nenhum.
Hélio Fernandes, o homem da Tribuna e dos processos políticos. Apesar de tudo, ele se sente feliz. Também pudera: quando estava encrencado com o governo militar, sempre teve ao lado uns advogadozinhos meio tigela como Prudente de Moraes, neto, Adauto Lúcio Cardoso, José Eduardo Prado Kelly e o mais admirado de todos: doutor Sobral Pinto. Será que andava mal acompanhado nosso Hélio? Para encerrar, diria que o senhor Luiz Gurshinken foi muito maldoso em relação ao grande jornalista. E, em que pese minha admiração pelo Sr. Lula da Silva, não posso deixar de dizer que Hélio está magoado com o nosso Presidente. Em minha opinião também acho que Lula não foi correto. Se ele, Lula, hoje está na crista da onda, deveria reconhecer historicamente o esforço de jornalistas e homens públicos como Hélio Fernandes. Oremos pelo retorno da Tribuna da Imprensa. Um abraço cordial e até a próxima.
Paulo Pires
(*) Professor UESB-FAINOR.







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