quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Retrato Carioca

Flamengo e Palmeiras – Sonho de uma tarde de primavera
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Por Valteci Freire
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Sol forte, céu sem nuvens, tarde tipicamente carioca. Saio de casa com meu filho em direção ao Maraca. Paramos junto ao Colégio Militar para encontrar os amigos, que chegam também vestidos com camisa rubro negras. Observo que desde a minha rua até a chegada ao estádio não vi nenhum policial. Somente flanelinhas atanazando a vida de quem passa. As ruas fervilham de tanta gente.

Uma onda vermelha e preta toma conta de tudo. Nos bares, botequins e esquinas, uma juventude bonita e bronzeada (as meninas com calças que mostram um palmo abaixo do umbigo e os meninos, malhados e com camisa no ombro, com bermudas lá embaixo, exibem as cuecas maneiras, como dizem) esbanja alegria. Duas morenas tipicamente tijucanas (como são bonitas as tijucanas!) estavam paradas à espera de alguém e conversavam animadamente sem perceberem que estavam vestidas de verde e branco, alheias ao movimento da rua e provavelmente nem sabiam que essa eram as cores do Palmeiras. Bem próximo ao Maracanã, já com o barulho ensurdecedor da torcida, quatro jovens dinamarquesas, com mochilas nas costas, olhavam extasiadas o movimento e falavam “beautiful, beautiful” enquanto esperavam ônibus para a zona sul. Aí então vi alguns policiais. Os vendedores ambulantes com seus imundos isopores com cerveja, refrigerantes etc agora estão longe das entradas do estádio. Ficam após o outrora rio Maracanã, com isso a sujeira diminui sensivelmente e também dificulta o consumo de bebidas e conseqüentemente o cheiro de xixi. “Levanta a camisa, para ajudar a gente”, gritava o barrigudo policial na revista perto das roletas de entrada (porque a maioria dos policiais são negros ou quase negros?). Um rapazote reclamava que comprou o ingresso na bilheteria e o mesmo foi recusado pela roleta. Entramos já com a rampa de acesso às arquibancadas totalmente lotadas com a multidão rubro negra cantando o hino do Flamengo. No final da rampa o busto do Garrincha, restaurado e tinindo de novo, envolvido com o sagrado manto vermelho e preto parecia abençoar a multidão. Turistas ou não, tiravam fotos junto ao eterno camisa 7 (aliás, essa a camisa seria o fator decisivo do jogo). Encontro Marcos, o ex estagiário que infernizava a vida do engraxate Flavio, o botafoguense. O sol estava de matar, haja água para beber. Entramos e ficamos na urubuzada, sendo que logo em seguida entraram as bandeiras da torcida. É uma emoção muito grande, principalmente para minha geração, quando as bandeiras com os rostos estampados de Zico, Leandro, Junior, Adílio, Mozer, Andrade e também do velho Dida, entram na arquibancada. A torcida nesse momento cantava o samba enredo da Estácio de Sá (Cobra coral, papagaio de vintém, vestir rubro negro, não tem prá ninguém), e nesse momento é difícil conter discretas lágrimas atrás nos óculos escuros. Olho para meu filho cantando e vejo a mesma alegria que via há anos atrás quando ele ainda era uma criança cantava junto com tudo que a galera entoava. Em seguida, um burburinho e uma estrondosa vaia. Palmeiras no entra em campo. Vanderlei Luxemburgo não agüentou o calor, deixou de lado sua elegância e tirou o seu paletó Armani e dava entrevista à TV. Luxemburgo, na minha opinião, é o melhor técnico de futebol do Brasil, mas é movido a elogios e precisa tanto desses afagos que se não recebe nenhum, ele se auto elogia. A torcida jovem começa cantar quando o Flamengo entra em campo. O estádio quase desaparece atrás da nuvem de papel picado. A torcida canta, encanta, enlouquece. Começa o jogo, o sol está a pino, o suor escorre, o grito está afinado. Um fato engraçado é que quando a arquibancada era de cimento, a torcida assistia o jogo sentada e só ficava em pé quando havia perigo de gol e no intervalo. Agora, depois da reforma, quando colocaram assentos, a torcida assiste o jogo de pé, em cima dos assentos, observei que apenas a torcida que estava nos assentos brancos, parte nobre e de ingressos mais caros, assiste sentada. São mais educados e chiques. Um cheiro de cannabis chega discretamente e foi aumentando durante todo jogo. A rapaziada deve ter queimado pelo menos um quilo. Com dois minutos, um garçom entrega de bandeja para Marcelinho Paraíba fazer o gol. Loucura, loucura. Kleberson está em estado de graça. Mas o Jailton, ah Jailton, faz pênalti e é gol verde e branco. Mas Obina faz jogada inteligente, a bola chega ao Fabio Luciano (um príncipe na partida) deu um “come’ no Roque Junior, passou adiante e a bola acabcou nos pés de quem? Do Ibson, que tocou para dentro do gol. Delirio, gritos, abraços, todos são irmãos no velho Maraca. Era a tarde de Ibson, o filho de Íbis, deus egípcio que reinventou o tempo, o deus touro da inteligência. Ibson ainda fez mais dois gols e mais tarde saiu ovacionado, como convém a um deus. Mas ainda faltava o gol do Kleberson. Ibson fez bela jogada, sobrou para Fabio Luciano (que pela manhã recebeu afago do Rondinelli, nosso querido deus da raça) jogar direto na cabeça do Kleberson que fez 5 a 2 e uma nova explosão no Maracanã. A partir daí foi só alegria. A torcida gritava olé e o juiz apitou finalizando o jogo. A nação rubro negra estava em paz com o time. Deixamos esvaziar um pouco e descemos as escadas, no meio de uma sujeira monumental na arquibancada: papel picado, garrafas de água, de refrigerantes, papéis e palitos de picolés e outras cositas. Pais com filhos nos ombros, namorados se beijando, abraços e cantos ao Flamengo envolvem a rampa, a estátua de Bellini e como sempre, o busto de Garrincha leva carinhosos e respeitáveis tapinhas da torcida rubra de alegria. Agora os ambulantes já chegaram mais perto do estádio. Cerveja na mão, parte da torcida segue para casa. Ando em direção a minha casa enquanto meu filho e amigos vão para a praça Varnhagem comemoraram no Buxixo, point de comemoração e de maior concentração de mulheres bonitas da Tijuca. Mais uma vez não encontro nenhum policial pelas ruas, do estádio até minha residência, mas chego em casa com a alma lavada.
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Cena carioca
Na hora do almoço, Ana Maria foi dar uma volta na Avenida Rio Branco, para espairecer e esquecer os processos seletivos que a aporrinhavam no trabalho. De repente, uma das ciganas que ficavam à espreita de clientes, segura na mão da Ana e fala: “Você está com um problema”. Ana, esperta, psicóloga de formação, fala:”É mesmo?”. A cigana responde: “Sim, e tem uma mulher que tem muita inveja de você”. Ana comenta: “Será que é minha cunhada?”. A cigana olha novamente a mão da Ana. Faz cara de sábia e responde: “Sim, é sua cunhada, com certeza”. Ana retruca: “Então você se deu mal. Sou filha única e não tenho marido, noivo nem namorado!” e seguiu em direção à Praça Mauá.



3 comentários:

Anônimo disse...

Valter,

Bela crônica. Digna de sair no Jornal do Sports. Ainda existe?

Gostei do texto, infelizmente não gosto de futebol, mas nem por isso posso deixar de apreciar o que é uma boa matéria ou um bom artigo.

Parabéns,Valterci!

Abração do amigo
J.P.Camillo Neri
V. Conquista, 19/11/08

Anônimo disse...

Caro J.P. Camilo,

obrigado pelas palavras. Sim, o Jornal dos Sports ainda existe. São poucos leitores. Agoniza mas não morre.

Abraços

Anônimo disse...

Valteci,

Lembrei do meu saudoso pai, Flamengo até os dentes. Quando o mengão ganhava agente estava feito, porém quando perdia - dizia ele: Hoje ninguém sai de casa. O encontro marcado com a paquena ia pro espaço, pois ordem sua ninguém era capaz de pensar em desobedecer!
Valter linda sua crônica, se meu velho vivo estivesse certamente iria ficar muito feliz.

Aproveito deste espaço para agradecer seu comentário sobre o texto UMA VOLTA AO PASSADO DE CONQUISTA, digo mais estou providenciando o CD com as fotos antigas para mandar cópia. Vou ver se consigo mandar por e-mail.
Um abraço,
EZEQUIEL SENA