quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O professor Bira Cairo e o barbante


Paulo Ludovico

O Instituto São Tarcísio é uma das maiores escolas de Vitória da Conquista. Mas, antes de ser o que é hoje, ele começou pequeno. Quando fui estudar no São Tarcísio, a escola funcionava numa sala, que ficava numa rua, atrás da casa onde moravam "seu" Viriato e "dona" Nenem, pais das professoras Edna (de saudosa memória), Edméia (artista plástica das mais talentosas) e Ednalva, além de Ednália e Eduardo, ainda estudantes, e de Edmilson e Edson (esses dois, na época, morando em Salvador).


Naqueles tempos, também estudavam lá os irmãos Péricles e Márcio Prado, as irmãs Lucila e Marília Fernandes, Robson Miranda (irmão de MacDonald, da Band), os irmãos Osvaldo e Orlando Celino, Ana Maria e seu irmão, Joaquim Sales (da Daytona), entre outros, que, oportunamente, mencionaremos.
Mais tarde, o São Tarcísio, já com o nome de Ginásio, passou a funcionar nos dois endereços: lá na Viriato Ribeiro e na Olívia Flores. Hoje, o Instituto São Tarcísio funciona com sala de aula só na Olívia Flores.
Nossa turma foi a primeira do primeiro ano, (hoje sexta série), segundo e terceiro anos, tudo no curso ginasial (hoje primeiro grau maior). Pois muito bem, e o que tudo isso tem a ver com esse "causo", de hoje? É muito simples, tudo aconteceu numa determinada aula naquele querido São Tarcísio. A nossa turma, além de mim, tinha também Áureo Galvão Filho, Felipe Fernandes, o Felipão (filho de Ubirajara Fernandes), Perpétua Correia de Melo, Sandra Ferraz, Mauro Muñoz, hoje médico, Crésio e Fernando Dantas Alves (filhos de Dr. Fernando Dantas Alves), Pedrinho Moraes Neto e Gilvan Quadros (filho de Raimundo Quadros). O querido amigo Gilvan, uma das pessoas de raciocínio mais rápido que tive a oportunidade de conhecer.
O caso ou "causo", como querem alguns, aconteceu numa aula de Ciências Naturais. Nosso professor era Ubirajara Ramos Cairo, o Bira Cairo, bioquímico da LAC, logo ali no Centro Médico. Um verdadeiro mestre, que, certamente, não será esquecido por quantos foram ou forem seus alunos. Bira, como fazem questão de afirmar algumas mães (a minha foi uma delas), teve importante participação na educação de seus filhos. Eles, hoje, atuam em diversos campos profissionais do dia-a-dia de Conquista.
Estávamos num mês de inverno, junho pra ser mais exato, e olhe que naquela época (69 ou 70), o frio era de lascar. Daqueles que deixam o sujeito com a orelha azul, durinha, durinha. O vento zunia na alma. A farda, me lembro como hoje, era camisa volta ao mundo amarela, gravata e calça azul-marinho. Volta do recreio, todos nos preparávamos para assistir à aula do querido Bira. E aquelas brincadeiras inocentes de outrora: um desliza a mão no cabelo de uma colega (naquele tempo, só isso) outro bate na orelha do que passa, existem os que se escondem pra assustar os que chegam. Tudo isso acontecia até nos acomodarmos em nossos lugares. Alguns minutos mais tarde, chega o professor. Aula vai, professor explica dali, um aluno pergunta daqui, e, de repente, o professor tem a idéia (seria melhor não tê-la) de pedir um barbante, para demonstrar uma determinada experiência, a pergunta veio assim, direta:
- Quem tem um barbante?
Ele, Gilvan, se levanta. Sem dizer uma palavra sequer, abaixa-se, pega a sua pasta de livros (pelo menos é que se supunha), abre o zíper (da pasta) e se senta. Começa então um verdadeiro ritual: futuca essa pasta de um lado pro outro, tira livro, coloca livro, tira peças de um jogo de futebol de mesa, tira uma dama do jogo de xadrez, saem também algumas figurinhas de um determinado álbum, o tempo vai passando, a turma toda esperando, e Bira se incomodando. O silêncio, cada vez maior, fazia aumentar também a angústia de todos. O professor, já que esperara até ali, só podia mesmo continuar esperando. De repente, Gilvan exclama um: Ah! Há! Pensamos todos: "Pronto, o danado do barbante havia sido encontrado"... Imediatamente após a sua exclamação, Gilvan se senta e, tranqüilamente, como se não fizesse parte daquele drama todo, tira uma luva, coloca na mão direita, tira outra luva, coloca na mão esquerda, fecha a pasta, coloca embaixo da cadeira, cruza os braços e, com a mais santa das ingenuidades, espera a continuação da aula do estupefato Bira Cairo, que outra atitude não podia ter, senão a de deixar a sala de aula e só voltar numa próxima oportunidade, quando se sentisse em condições de encarar a turma.

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