segunda-feira, 7 de julho de 2008

Realmente não tem explicação!


Por Ezequiel Sena

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Não colocaram um nome tão apropriado como este: Sertão dos Esquecidos - uma região onde homens, mulheres e crianças sofrem as conseqüências de um trabalho perigoso e degradante. Cresci ouvindo dos meus pais, que são daquelas bandas, sobre a mutilação dos trabalhadores do chamado vale do sisal. Ontem assisti ao programa "Domingo Espetacular" da Rede Record que fez uma matéria sobre o vale do sisal, situado no norte da Bahia. É de se lastimar que em pleno século XXI, era de tanta tecnologia, as nossas autoridades permitam a utilização de uma máquina que mutila as pessoas.

Segundo os depoimentos dos próprios trabalhadores, eles recebem por semana entre R$ 30 e R$ 40, e que no final do mês a soma não chega à metade de um salário mínimo. Isso, além de vergonhoso é deprimente para a Bahia, e porque não dizer para o Brasil. Mães sendo obrigadas a entregar seus filhos para outros criarem por não terem a mínima condição de sustentá-los com o trabalho no sisal. Aqueles que moram com a família são obrigados a trabalhar com os pais no corte, no transporte - no lombo de jegues e no processamento da fibra para ajudar no sustento, retirando deles o direito de estudar e brincar, como faz qualquer criança. Durante 10 horas por dia, cada um consegue carregar as ásperas e ponte-agudas folhas de sisal até o depósito onde ficam as máquinas de beneficiamento, aproximadamente meia a uma tonelada de palma da planta.
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O resultado disso são homens e crianças sem mãos e braços mutilados pelas máquinas de beneficiamento do sisal e outras sem enxergar por ter seus olhos perfurados pelos espinhos das ponte-agudas folhas da planta. Para agravar ainda mais a situação é a falta de compromisso do Estado em relação a esses trabalhadores que ficam totalmente desamparados e desprotegidos pela legislação trabalhista, pois a lei não reconhece os direitos dos mutilados que perdem um dos membros. Segundo informações da Comissão Pastoral da Terra, a legislação prevê benefício apenas nos casos de total invalidez, ou seja: terá que perder as duas mãos ou ambos os braços para terem o direito de receber o benefício da invalidez.
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Sem nenhum exagero, mas pelas imagens exibidas neste domingo (06.07.2008), o quadro destes irmãos sobreviventes do sisal se compara aos mutilados pelas minas das guerras das províncias Angolanas, de Luanda, Huambo, Bié e mais recentemente da guerra do Iraque. Dados da Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira (Apaeb-Valente) revelam a contabilização de mais de duas mil pessoas aleijadas vítimas da perigosa máquina em uso no desfibramento do sisal.
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Agora vejam como é a lerdeza do Governo, em 1987 o inventor paraibano José Faustino dos Santos, idealizou um equipamento, conhecido como “Faustino”, inclusive naquela época recebeu o prêmio “Talento Brasileiro”, dado pelo governo federal. Além de ser uma invenção de baixo custo, (desfibradora e motor), preço que poderia ser reduzido significativamente quando fosse iniciada a sua produção em série. A expectativa era de que, além de se evitar as mutilações, a máquina, em razão da sua alta produtividade, aumentasse a renda dos trabalhadores do sisal, contribuindo para a redução do trabalho infantil na região. Mas como as ações que eram pra ontem, na esfera governamental andam a passos de “tartaruga”, só nos resta esperar e acreditar que as autoridades proíbam vez por todas que este trambolho por ser uma verdadeira assassina do sertanejo, pare de funcionar.
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Como entender o porquê que já se passaram quase 20 anos, depois da invenção da Faustino, mesmo assim, até hoje continuam utilizando uma máquina antiga, ultrapassada e assassina, realmente não tem qualquer explicação.

Um comentário:

Anônimo disse...

MUITO BOM!!! VC ESTÁ DE PARABENS!!! BEIJOS