Cynara Menezes , da Revista Carta Capital
O deputado Edigar Evangelista dos Santos chega exausto ao gabinete no sexto andar do Anexo IV da Câmara Federal. Em tempos de festas juninas, não é mole dividir as atividades parlamentares com as de cantor de forró. Varou a noite revezando-se ao volante de um Fiat Uno com um amigo músico, de Caetité, na Bahia, até Brasília, para conseguir alcançar a sessão de quarta-feira. São 800 quilômetros de distância. Puxado, até para quem se define como “um estradante”.
“Eu assumo as faltas, não mando atestado médico, como muitos. Fiz shows em mais de 20 cidades em junho”, conta. O deputado cantor tem olheiras nas pálpebras manchadas pelo vitiligo, que lhe descoloriu também as mãos e lhe rendeu o apelido incorporado ao nome político. Edigar Mão Branca (PV-BA) conta que foi ele mesmo quem se alcunhou assim, ainda adolescente, para “quebrar o gelo” e certo constrangimento das pessoas diante da visão da doença que despigmenta a pele. Mas sua marca, na verdade, não é essa.
Mão Branca ficou conhecido por usar chapéu de couro. Ou melhor: por se recusar a tirá-lo. Quando assumiu o mandato, em março do ano passado, na suplência deixada por Geddel Vieira Lima, guindado ao posto de ministro da Integração Regional, comprou briga com o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, pelo direito de levar a peça sobre a cabeça em plenário. Chegou a entrar com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal pelo direito de usar o chapéu na Casa.
O STF negou o pedido, mas Chinaglia resolveu deixar para lá e Mão Branca circula livremente com o chapéu de couro de vaqueiro nordestino pelo Salão Verde, plenário, comissões, corredores e afins. O deputado foi visto até na recepção oficial da Câmara ao príncipe japonês, Naruhito, mês passado, usando o dito-cujo. Segundo os jornais, não tirou nem na hora da execução dos hinos. “Mentira, coloquei o chapéu no peito durante o Hino Brasileiro. Agora, para um príncipe que vem para cá explorar a gente, eu vou lá tirar chapéu?”
Rebelde sem causa (mas com chapéu), Mão Branca explica que adota um critério de livre-arbítrio, do qual não transige sob nenhuma hipótese na hora de descobrir a cabeça – e ele nem é careca nem nada. É assim: ao entrar numa igreja, por exemplo, tira o chapéu automaticamente. “Mas se o padre pedir, não tiro”, desafia. E para as mulheres? “Ah, para as gatinhas, sempre”, galanteia o deputado, que tem um filho de 6 anos. O senhor é casado? “É, sou casado, né? Bom, casado, casado, como a sociedade diz, não.”
O cantor parlamentar ou parlamentar cantor prefere não misturar as duas atividades (“Tô correndo léguas de falar de política em meus shows”), mas lançou um forró sobre o imbróglio com a presidência da Câmara, onde faz um jogo de palavras entre “decoro” e “de couro”, matéria-prima de seu querido chapéu. Meu chapéu é de couro parlamentar/ Esse meu chapéu é um tesouro/ Com tanta coisa pra consertar,/ queriam implicar com meu chapéu de couro./ Hoje eu digo que é melhor usar o meu chapéu/ Do que dar um chapéu no povo, canta.
Também lançou um projeto de lei defendendo a liberdade do uso de chapéu em estabelecimentos públicos e privados, aprovado em junho na Comissão de Educação e Cultura da Câmara e encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça. Apresentado em abril do ano passado, pode-se dizer que, em se tratando da Câmara Federal, a apreciação do projeto foi de uma rapidez espantosa. Com perdão do trocadilho, de tirar o chapéu.
Mas, depois da confusão com a presidência, Mão Branca afirma que vem sendo boicotado pela direção da Casa. Segundo ele, o Jornal da Câmara não publica nenhuma foto sua e chega ao cúmulo de usar Photoshop para apagá-lo das aparições em plenário. Responsável pelo jornal, o secretário de Comunicação Social, William França, nega as acusações. “Não houve, não há nem haverá censura contra o deputado ou contra qualquer outro”, diz França. “Só usamos Photoshop para corrigir claro, escuro.”
O secretário conta que, em abril deste ano, foi procurado pelo parlamentar, que queria saber por que não haviam sido publicadas no jornal interno as fotos de uma manifestação que protagonizou nas dependências da Casa. Trancado numa gaiola de passarinho ao lado do compositor Xangai, ele cantou no lançamento de sua Frente Parlamentar em Defesa da Música – aliás, outro projeto de lei de Mão Branca prevê que a cantoria seja declarada “patrimônio imaterial nacional”. França explicou que a foto só não entrou por falta de espaço na hora da edição.
“Que nada, é preconceito. Eles têm nojo de nordestino. Queria ver se haveria sessão no Congresso se as festas de São João fossem em São Paulo. Duvido”, diz o parlamentar. Baiano de Macarani com domicílio eleitoral em Itapetinga, o deputado trabalhou na roça, engraxou sapatos e foi locutor de rádio antes de se lançar na política. Escolheu o Partido Verde porque se sentia “mais próximo da esquerda”. A candidatura a deputado federal foi a primeira: recebeu 23.411 votos em 2006.
Agora, planeja concorrer a prefeito de Itapetinga, mas prevê que será mais difícil conciliar as atividades de administrador da cidade com a de músico. E músico de sucesso, gaba-se. “Sou Roberto Carlos em dez cidades”, diz. Em Maracás, cidade do centro-sul baiano com 34.221 habitantes, de acordo com o IBGE, viu chegarem “umas 30 mil pessoas” para assistir ao show. Ou seja, quase 100% de comparecimento. Quórum de dar inveja a Arlindo Chinaglia.
Até por isso, apresentou outro projeto polêmico, a volta dos showmícios, proibidos desde a minirreforma eleitoral de 2006. “Acabaram com os showmícios de forma brusca, truculenta, sem respeitar uma classe. Nem seria capaz de dizer quantos artistas foram prejudicados”, defende. “A gente sabe que o showmício tem malefícios, que beneficia os candidatos que têm mais dinheiro, mas pode-se estabelecer regras, ora.”
Além de dar emprego aos músicos, a volta dos showmícios iria proporcionar uma vantagem extra: ajudar as pessoas a suportar a chatice dos discursos políticos, como reconhece o próprio parlamentar. “Para ter saco de ouvir determinadas mensagens, só com a certeza de que haveria show depois. A música bota vida até em velório”, prega.
Outro projeto de lei do deputado é a criação, pelo Ministério das Cidades, de uma linha de financiamento para rebocar as casas que ainda possuem fachada em tijolo aparente. Não que ele ache feias, mas porque, opina, são símbolo de pobreza. “Salvador, por exemplo, tem praias maravilhosas, mas aí você olha e vê bairros inteiros com casas sem rebocar.” Com tantas idéias diferentes, Mão Branca não teme ser apontado como um parlamentar exótico, mesmo porque “coragem de ser autêntico” é seu slogan.
No gabinete, a gaiola onde cantou com Xangai continua lá, ao lado de três chapéus de couro novos. Ele prefere usar um velho, que herdou do pai. E como faz para tirar aquele cheiro característico do couro nordestino? “A inhaca? Ela passa depois. Ou então sou eu que me acostumo”, especula. E dá a resposta definitiva para quem acha falta de respeito circular pelo Parlamento com chapéu na cabeça. “Falta de respeito é falar palavrão, roubar o povo...”
“Eu assumo as faltas, não mando atestado médico, como muitos. Fiz shows em mais de 20 cidades em junho”, conta. O deputado cantor tem olheiras nas pálpebras manchadas pelo vitiligo, que lhe descoloriu também as mãos e lhe rendeu o apelido incorporado ao nome político. Edigar Mão Branca (PV-BA) conta que foi ele mesmo quem se alcunhou assim, ainda adolescente, para “quebrar o gelo” e certo constrangimento das pessoas diante da visão da doença que despigmenta a pele. Mas sua marca, na verdade, não é essa.
Mão Branca ficou conhecido por usar chapéu de couro. Ou melhor: por se recusar a tirá-lo. Quando assumiu o mandato, em março do ano passado, na suplência deixada por Geddel Vieira Lima, guindado ao posto de ministro da Integração Regional, comprou briga com o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, pelo direito de levar a peça sobre a cabeça em plenário. Chegou a entrar com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal pelo direito de usar o chapéu na Casa.
O STF negou o pedido, mas Chinaglia resolveu deixar para lá e Mão Branca circula livremente com o chapéu de couro de vaqueiro nordestino pelo Salão Verde, plenário, comissões, corredores e afins. O deputado foi visto até na recepção oficial da Câmara ao príncipe japonês, Naruhito, mês passado, usando o dito-cujo. Segundo os jornais, não tirou nem na hora da execução dos hinos. “Mentira, coloquei o chapéu no peito durante o Hino Brasileiro. Agora, para um príncipe que vem para cá explorar a gente, eu vou lá tirar chapéu?”
Rebelde sem causa (mas com chapéu), Mão Branca explica que adota um critério de livre-arbítrio, do qual não transige sob nenhuma hipótese na hora de descobrir a cabeça – e ele nem é careca nem nada. É assim: ao entrar numa igreja, por exemplo, tira o chapéu automaticamente. “Mas se o padre pedir, não tiro”, desafia. E para as mulheres? “Ah, para as gatinhas, sempre”, galanteia o deputado, que tem um filho de 6 anos. O senhor é casado? “É, sou casado, né? Bom, casado, casado, como a sociedade diz, não.”
O cantor parlamentar ou parlamentar cantor prefere não misturar as duas atividades (“Tô correndo léguas de falar de política em meus shows”), mas lançou um forró sobre o imbróglio com a presidência da Câmara, onde faz um jogo de palavras entre “decoro” e “de couro”, matéria-prima de seu querido chapéu. Meu chapéu é de couro parlamentar/ Esse meu chapéu é um tesouro/ Com tanta coisa pra consertar,/ queriam implicar com meu chapéu de couro./ Hoje eu digo que é melhor usar o meu chapéu/ Do que dar um chapéu no povo, canta.
Também lançou um projeto de lei defendendo a liberdade do uso de chapéu em estabelecimentos públicos e privados, aprovado em junho na Comissão de Educação e Cultura da Câmara e encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça. Apresentado em abril do ano passado, pode-se dizer que, em se tratando da Câmara Federal, a apreciação do projeto foi de uma rapidez espantosa. Com perdão do trocadilho, de tirar o chapéu.
Mas, depois da confusão com a presidência, Mão Branca afirma que vem sendo boicotado pela direção da Casa. Segundo ele, o Jornal da Câmara não publica nenhuma foto sua e chega ao cúmulo de usar Photoshop para apagá-lo das aparições em plenário. Responsável pelo jornal, o secretário de Comunicação Social, William França, nega as acusações. “Não houve, não há nem haverá censura contra o deputado ou contra qualquer outro”, diz França. “Só usamos Photoshop para corrigir claro, escuro.”
O secretário conta que, em abril deste ano, foi procurado pelo parlamentar, que queria saber por que não haviam sido publicadas no jornal interno as fotos de uma manifestação que protagonizou nas dependências da Casa. Trancado numa gaiola de passarinho ao lado do compositor Xangai, ele cantou no lançamento de sua Frente Parlamentar em Defesa da Música – aliás, outro projeto de lei de Mão Branca prevê que a cantoria seja declarada “patrimônio imaterial nacional”. França explicou que a foto só não entrou por falta de espaço na hora da edição.
“Que nada, é preconceito. Eles têm nojo de nordestino. Queria ver se haveria sessão no Congresso se as festas de São João fossem em São Paulo. Duvido”, diz o parlamentar. Baiano de Macarani com domicílio eleitoral em Itapetinga, o deputado trabalhou na roça, engraxou sapatos e foi locutor de rádio antes de se lançar na política. Escolheu o Partido Verde porque se sentia “mais próximo da esquerda”. A candidatura a deputado federal foi a primeira: recebeu 23.411 votos em 2006.
Agora, planeja concorrer a prefeito de Itapetinga, mas prevê que será mais difícil conciliar as atividades de administrador da cidade com a de músico. E músico de sucesso, gaba-se. “Sou Roberto Carlos em dez cidades”, diz. Em Maracás, cidade do centro-sul baiano com 34.221 habitantes, de acordo com o IBGE, viu chegarem “umas 30 mil pessoas” para assistir ao show. Ou seja, quase 100% de comparecimento. Quórum de dar inveja a Arlindo Chinaglia.
Até por isso, apresentou outro projeto polêmico, a volta dos showmícios, proibidos desde a minirreforma eleitoral de 2006. “Acabaram com os showmícios de forma brusca, truculenta, sem respeitar uma classe. Nem seria capaz de dizer quantos artistas foram prejudicados”, defende. “A gente sabe que o showmício tem malefícios, que beneficia os candidatos que têm mais dinheiro, mas pode-se estabelecer regras, ora.”
Além de dar emprego aos músicos, a volta dos showmícios iria proporcionar uma vantagem extra: ajudar as pessoas a suportar a chatice dos discursos políticos, como reconhece o próprio parlamentar. “Para ter saco de ouvir determinadas mensagens, só com a certeza de que haveria show depois. A música bota vida até em velório”, prega.
Outro projeto de lei do deputado é a criação, pelo Ministério das Cidades, de uma linha de financiamento para rebocar as casas que ainda possuem fachada em tijolo aparente. Não que ele ache feias, mas porque, opina, são símbolo de pobreza. “Salvador, por exemplo, tem praias maravilhosas, mas aí você olha e vê bairros inteiros com casas sem rebocar.” Com tantas idéias diferentes, Mão Branca não teme ser apontado como um parlamentar exótico, mesmo porque “coragem de ser autêntico” é seu slogan.
No gabinete, a gaiola onde cantou com Xangai continua lá, ao lado de três chapéus de couro novos. Ele prefere usar um velho, que herdou do pai. E como faz para tirar aquele cheiro característico do couro nordestino? “A inhaca? Ela passa depois. Ou então sou eu que me acostumo”, especula. E dá a resposta definitiva para quem acha falta de respeito circular pelo Parlamento com chapéu na cabeça. “Falta de respeito é falar palavrão, roubar o povo...”








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