Herodes de Belém
Diz o anedotário esportivo brasileiro que o ex-craque Baiaco (Esporte Clube Bahia) ao chegar a Belém do Pará, concedeu uma entrevista pitoresca (como sempre), onde afirmou se “sentir muito feliz em jogar na terra em que Jesus nasceu”. O repórter, irônico com o grande meio-campista, disse que aquela cidade estava a milhares de quilômetros da outra Belém (da Judéia), onde nascera o menino Jesus. Nosso folclórico craque se deu conta da mancada e sorriu.
Hoje, passado tanto tempo daquela famosa entrevista, a sensação que o Brasil está tendo é que a nossa Belém do Pará está se transformando em uma espécie de Belém da Judéia (dos tempos antigos), levando-se em conta o tratamento que bebês e crianças com menos de dois anos de idade estão recebendo. Segundo o noticiário nacional, nos últimos quinze dias mais de trinta bebês morreram depois de serem “atendidos” no maior Hospital da cidade.
Se você, caro amigo e cara amiga não são ateus (ou piores, à toa), devem ter lido um pouquinho da Bíblia e devem ter encontrado em Marcos, Lucas, Oséias ou Miquéias referências ao Rei Herodes da Judéia. Este senhor foi avisado de que nasceria o sucessor de Davi e que o menino seria o filho de um carpinteiro e de uma moça muito humilde. Herodes tomado pelo pânico de não fazer o seu sucessor (isso ocorre até hoje), chamou a sua assessoria e mandou decapitar todas as crianças com menos de dois anos de idade. Foi um pega-pá-capá infernal!
Por causa disso, José e Maria tiveram de se mudar para longe. Imaginem o desconforto da família se deslocando da Judéia para o Egito, em lombo de jumento e com uma criança recém-nascida. Quem já pegou uma “catanica” no Terminal Lauro de Freitas para ir até o povoado de Cercadinho tem mais ou menos idéia do que seja isso. Haja bumbum.
O patético na história envolvendo os bebês de Belém do Pará é a justificativa das autoridades. Disse o Secretário de Saúde do Estado, que a mortandade estava absolutamente “dentro do normal” em relação às previsões estatísticas. De minha parte, alerto o senhor Secretário sobre a validade dos seus percentuais. Os dados estatísticos, segundo Dr. Roberto Campos, “são como os biquínis: revelam aspectos importantes, mas escondem sempre o essencial”.
Penso que Herodes, o Rei, deve estar em algum lugar (provavelmente no inferno) perguntando: “Será que algum governante maluco do Pará está temendo usurpação do seu trono?”. O fato é que o País ficou consternado com as Mães e os pais chorando, soluçando e enterrando suas crianças. Para todos foi um desconforto inapagável. Uma tragédia.
É mais que urgente o País redirecionar recursos substanciais para a saúde. Não podemos vivenciar episódios como esse sem nos consternar. Isso coloca até em dúvida se estamos a poucos passos de nos tornarmos uma superpotência. Essa avaliação consta na edição desta semana (6 páginas) do Financial Times. Uma potência econômica não pode conviver com tragédias dessa natureza. Isso é coisa tribal.
Precisamos tratar nossas crianças e nossos idosos com mais respeito. È claro que sentimos um grande esforço por parte dos governantes, mas ainda assim, consideramos que muito mais pode ser feito. Será que realmente queremos uma sociedade justa, igualitária, solidária? Se este discurso ainda estiver em voga é mais do que necessário redobrar esforços.
Hospitais públicos precisam melhorar muito. A coisa pública não pode ser tratada com desleixo. Coisa pública é sagrada. Pertence a todos, portanto, devemos ter cuidados especiais com ela. Só os abestolados é que pensam o contrário. Para esses idiotas infantis, alertamos para o fato de Herodes ainda estar na esperança de encontrá-los. Cabeças vão rolar. Um abraço cordial e até a próxima.
Paulo Pires
(*) Professor UESB-FAINOR.
Diz o anedotário esportivo brasileiro que o ex-craque Baiaco (Esporte Clube Bahia) ao chegar a Belém do Pará, concedeu uma entrevista pitoresca (como sempre), onde afirmou se “sentir muito feliz em jogar na terra em que Jesus nasceu”. O repórter, irônico com o grande meio-campista, disse que aquela cidade estava a milhares de quilômetros da outra Belém (da Judéia), onde nascera o menino Jesus. Nosso folclórico craque se deu conta da mancada e sorriu.
Hoje, passado tanto tempo daquela famosa entrevista, a sensação que o Brasil está tendo é que a nossa Belém do Pará está se transformando em uma espécie de Belém da Judéia (dos tempos antigos), levando-se em conta o tratamento que bebês e crianças com menos de dois anos de idade estão recebendo. Segundo o noticiário nacional, nos últimos quinze dias mais de trinta bebês morreram depois de serem “atendidos” no maior Hospital da cidade.
Se você, caro amigo e cara amiga não são ateus (ou piores, à toa), devem ter lido um pouquinho da Bíblia e devem ter encontrado em Marcos, Lucas, Oséias ou Miquéias referências ao Rei Herodes da Judéia. Este senhor foi avisado de que nasceria o sucessor de Davi e que o menino seria o filho de um carpinteiro e de uma moça muito humilde. Herodes tomado pelo pânico de não fazer o seu sucessor (isso ocorre até hoje), chamou a sua assessoria e mandou decapitar todas as crianças com menos de dois anos de idade. Foi um pega-pá-capá infernal!
Por causa disso, José e Maria tiveram de se mudar para longe. Imaginem o desconforto da família se deslocando da Judéia para o Egito, em lombo de jumento e com uma criança recém-nascida. Quem já pegou uma “catanica” no Terminal Lauro de Freitas para ir até o povoado de Cercadinho tem mais ou menos idéia do que seja isso. Haja bumbum.
O patético na história envolvendo os bebês de Belém do Pará é a justificativa das autoridades. Disse o Secretário de Saúde do Estado, que a mortandade estava absolutamente “dentro do normal” em relação às previsões estatísticas. De minha parte, alerto o senhor Secretário sobre a validade dos seus percentuais. Os dados estatísticos, segundo Dr. Roberto Campos, “são como os biquínis: revelam aspectos importantes, mas escondem sempre o essencial”.
Penso que Herodes, o Rei, deve estar em algum lugar (provavelmente no inferno) perguntando: “Será que algum governante maluco do Pará está temendo usurpação do seu trono?”. O fato é que o País ficou consternado com as Mães e os pais chorando, soluçando e enterrando suas crianças. Para todos foi um desconforto inapagável. Uma tragédia.
É mais que urgente o País redirecionar recursos substanciais para a saúde. Não podemos vivenciar episódios como esse sem nos consternar. Isso coloca até em dúvida se estamos a poucos passos de nos tornarmos uma superpotência. Essa avaliação consta na edição desta semana (6 páginas) do Financial Times. Uma potência econômica não pode conviver com tragédias dessa natureza. Isso é coisa tribal.
Precisamos tratar nossas crianças e nossos idosos com mais respeito. È claro que sentimos um grande esforço por parte dos governantes, mas ainda assim, consideramos que muito mais pode ser feito. Será que realmente queremos uma sociedade justa, igualitária, solidária? Se este discurso ainda estiver em voga é mais do que necessário redobrar esforços.
Hospitais públicos precisam melhorar muito. A coisa pública não pode ser tratada com desleixo. Coisa pública é sagrada. Pertence a todos, portanto, devemos ter cuidados especiais com ela. Só os abestolados é que pensam o contrário. Para esses idiotas infantis, alertamos para o fato de Herodes ainda estar na esperança de encontrá-los. Cabeças vão rolar. Um abraço cordial e até a próxima.
Paulo Pires
(*) Professor UESB-FAINOR.








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