terça-feira, 8 de abril de 2008

ACADEMIA DO PAPO




Jogo feio: futebol-medo

Domingo, 06 de abril de 2008, Vitória da Conquista, Bahia, Estádio Lomanto Junior cheio de torcedores, começa o jogo Conquista e Bahia. Os torcedores locais estão eufóricos. Há muito tempo nenhum time da cidade chega ao quadrangular final do Campeonato Baiano. Muita gente alegre. Muita gente cheia de cana. A charanga tá afiada. Bate o bumbo, toca o pandeiro, repica o tamborim. A bandinha faz o som e a torcida faz a ola.


Os radialistas e os jornalistas televisivos prenunciam um grande espetáculo. Cocó, chefe da torcida Gaviões do Jurema diz que o nosso time ganharia de um a zero. O âncora do Programa Esporte Cidade Edmundo Vieira disse que qualquer vitória seria de bom tamanho. Vonca Gonçalves está confiante, porque considera o time de Conquista o melhor do campeonato. Outro comentarista, o simpático Daniel Nogueira não emitiu opinião sobre o placar. Daniel sentiu-se em uma encruzilhada: torce pelo Bahia desde pequeno, mas tem a outra metade do coração totalmente tomado pelo amor aos conquistenses e ao time do Conquista.

Não chovia nem fazia frio. Percebia-se uma inquietação no ar. A bola tá rolando. Há algo estranho nela. Parecia queimar. Ninguém ficava com a pelota por mais de 10 segundos. O Bahia dava sinais de que a sua preocupação era não tomar gols. Se der para fazer, tudo bem. Se não, o negócio é segurar a redonda e deixar o tempo passar. Fora de casa, um empate não é mau resultado, pensava o treinador Comelli. O técnico do Conquista – Elias Borges – parecia adivinhar o pensamento do adversário. Achava que o fato de jogar com o grande Bahia, ex-campeão brasileiro (duas vezes) e sair da contenda com um empate não é de todo mal. Ambos os treinadores orientavam seus times para “trabalhar a bola”. “Não desperdicem a posse bola”, esbravejavam.

A torcida, com uma intuição impressionante, aos vinte minutos do primeiro tempo, começava a sentir cheiro de um insípido zero a zero. Um chutinho aqui, outro acolá, mas tudo sem o vigor necessário para chegar à rede adversária. O jogo seguia, parecendo dança de irmão com irmã. Na arquibancada as torcidas procuravam ostentar as esperanças de vitória. Mas no campo, os jogadores pareciam aceitar o empate como um resultado saudável para as duas melhores agremiações do primeiro turno. Será que eles combinaram? Não, isto é impossível! Lá vai Tatu. Dá um drible mágico em um defensor do Bahia, encaminha-se para a área, dá um peteleco na bola, que mal chega aos pés do seu companheiro. Um chutinho prá fora e nada mais. O atleta do Bahia encobre o nosso goleiro Rodrigues, mas o zagueiro central Sílvio tira a bola praticamente dentro do gol. Daí prá frente, o trem ficou feio. Curioso é que a gente sabe do poder de fogo do nosso time.

Quem gosta de futebol lembra-se imediatamente de João Saldanha, ou João Sem Medo, como escreveu Eduardo Manhães em um livro sobre o velho botafoguense e ex-técnico do escrete nacional. Com Saldanha o papo era outro. Era ganhar ou perder. Empatar jamais. Nos intervalos dos jogos, Saldanha chamava os seus comandados e dizia: “bola prá frente. Não quero esse negócio de empate” berrava o comunista. O gaúcho trazia no sangue a bravura armada de Bento Gonçalves e a retórica afiada de Pinheiro Machado.

No Lomantão a conversa era outra. Os dois técnicos diziam “segura a bola” (embora ninguém conseguisse) e o jogo transcorria naquela modorra. Vibrante mesmo só se viam as torcidas. Tanto a do Bahia quanto a do Conquista botaram prá quebrar. Os torcedores do Bahia, logo que chegaram à Cidade, não sei como eles descobriram, foram direto para o Ceasa do Bairro Brasil, e lá comeram todas as feijoadas, buchadas e sarapatel que encontraram pela frente. Os homens chegaram com uma fome que nem te conto. É necessário dizer que a comilança foi regada com muitas geladas, batidas de maracujá, conhaques e cachaça riachim. Mas mantiveram-se tranqüilos, demonstrando confiança que o Esquadrão de Aço derrotaria o Bode em pleno cercado. Esqueceram-se apenas de uma coisa: o bode não queria perder – como não perdeu - de nenhuma forma.

Finalmente o jogo acabou. Os que ainda estavam sóbrios foram para casa; os que estavam embalados (bebuns) foram para o Micareta (foi o meu caso). Só na segunda feira é que dei conta de quanto o jogo foi ruim (bota ruim nisso!). Mas valeu a pena, porque na Micareta vi umas duas figuras – como diz o McDonald - capazes de fazer o barbeiro amolar a navalha na língua do freguês. Mas, do mesmo modo que ocorreu no jogo, só fiquei olhando. O jogo do Micareta também foi zero a zero. Que domingo maçante! Um abraço cordial e até a próxima.
Paulo Pires
Professor UESB-FAINOR

Um comentário:

  1. O futebol apresentado pelas duas equipes-tinha umpouco o aspecto de judô.A tal marcação, homem a homem.O V. da Conquista precisa aprender com urgência a jogar sem a bola ou seja, se movimentar abrindo espaços, tornando-se uma opção de passe.Daqui para frente, vão encontrar muitos jogos fechados, marcação cerrada.

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