domingo, 16 de março de 2008

ACADEMIA DO PAPO


Paulo Pires (*)

A cobaia na Exposição



Conforme prometi em nosso último encontro, voltei à Exposição do Parque Theopompo de Almeida. Meninos, nem te conto! Cheguei lá por volta de 9 da noite, e, para minha felicidade (ou infelicidade), um amigo que estava expondo me convidou para experimentar uma pinga que trouxeram prá ele lá de Salinas. Oba! Pensei logo na Havana. Mas não era. Tudo bem. Como dizia um amigo oportunista: “De graça eu pego até ônibus errado”. E lá fomos nós, provar a tal pinga. Antes ele mandou vir uns espetinhos de carne que estavam deliciosos. Acho que o sal da carne puxou o apetite e nós caímos “matando” em cima da garrafa.


Uma coisa que era para ser provada virou ato predatório. Bebemos a “mardita” em pouco menos de uma hora. Resultado: ficamos bêbados. A coisa tava tão apetitosa que a gente nem se lembrou do alerta de numa marchinha de carnaval [1953] que diz Cachaça não é água não. É verdade. Mirabeau, Castro e Lobato compuseram a música em cujos versos a gente encontra a advertência: “Se você pensa que cachaça é água? Cachaça não é água não. Cachaça vem do alambique e água vem do ribeirão”. Nós tibungamos na garrafa como se ela quisesse fugir. Não era necessária aquela volúpia toda. Mas agora não adianta mais.
Um dos consolos para quem fica chumbado é que isso não é para sempre. Falar nisso, lembrei de um bêbado que entrou aos trancos e barrancos em um ônibus e ficou olhando os passageiros com aquele olhar desafiador. Parou o olho numa mulher feia (cá prá nós, muito feia) e disse: “Êta mulher feia da peste!”. A mulher revidou na hora: “Você tá bêbado!”. Sabe o que o bêbado disse? “É, mas amanhã eu tô são!” Esse bêbado além de mal educado era cruel também (ah, ah, ah!).
Depois que saí do stand do meu amigo, ao invés de ir direto para casa, resolvi dar uma passadinha no Boca de Forno. Lá encontrei Haroldo Gusmão, Eli Cunha, Albene Silveira, Cléber Correia de Melo e o divertidíssimo Bira Bigode. Antes, logo na entrada encontrei o Coronel Esmeraldino Correia que estava com o tio, nosso amigo Jovino (grande crooner da Banda Amantes do Forró). Pela minha cara, acho que os dois perceberam que eu acabara de atravessar o Mar Vermelho. A cor dos olhos de quem bebe pinga não esconde. Cachaça é uma bebida tão pesada que quando o sujeito se embriaga com ela, muda até a fisionomia. Os olhos ficam vermelhos, o nariz fica mais grosso e o cheiro exala pelos poros. Não tem cristão que suporte. E tem mais: Não adianta querer disfarçar que fica pior. A marvada não aceita disfarce. Embora o ar condicionado estivesse ligado, com o calor humano que havia lá dentro, era impossível a pessoa não transpirar. No meu caso, a cachaça, sem ter sido solicitada, começou a se apresentar aos amigos. Juntou-se a esse incômodo, o vozerio que era tanto e tão alto que só fêz complicar o meu estado físico. Como lá no Boca não vende pinga, fui obrigado a mudar de bebida. Aí a coisa piorou. Nossos amigos Josenaldo Barros e Sônia Palles muito gentilmente esboçaram um gesto para que nos sentássemos com eles, mas achei melhor não.
Saímos do Boca não sei que horas da madrugada. Ainda deu vontade de olhar aquele touro descarado da semana passada. Avaliei melhor as minhas condições e achei prudente não encará-lo. Quem sabe não tivesse uma reação violenta em relação a ele? Hoje estou convencido que tomei uma decisão acertada. Tenho impressão que se o touro me visse naquele estado, certamente faria algumas divagações que me trariam muitos desconfortos. Do jeito que as coisas estão não ficaria assustado se o ouvisse cantando uma musiquinha que Noel Rosa fêz em 1936 com Rubens Soares: “Por que bebes tanto assim rapaz? Chega, já é demais. Se é por causa de mulher é bom parar...”. Juro que não foi por causa de mulher. Foi sem vergonhice mesmo. Como estou com o relógio biológico alterado, de vez em quando saio do ar, mesmo sem beber. Mas que a pinga tava boa, isso não hei de negar. Depois vou contar as doidices de Bira Bigode lá dentro do Boca. Pena não estar tão lúcido para guardar as anedotas desse engraçadíssimo conquistense. Aproveitei o final da tarde do domingo para voltar ao Parque. Desta feita sem cachaça. Quando passava em frente a um stand, ouvi alguém dizendo: “O homem sarou”. Claro que aquilo foi dirigido a mim. Foi o maior barato essa Exposição! Mando uma pequena mensagem aos jovens: Nunca façam o que eu faço. Um abraço cordial e até a próxima.

Paulo Pires Professor UESB-FAINOR.


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