terça-feira, 18 de março de 2008

ACADEMIA DO PAPO


Paulo Pires (*)
A maré não está prá peixe

Mesmo com o reconhecimento internacional de que o Brasil vai bem, a grande verdade é que a maré não está prá peixe. A crise imobiliária nos Estados Unidos está provocando um alvoroço que alguns analistas avaliam na mesma proporção da crise da Bolsa de Nova Iorque em 1929.



O Brasil, na avaliação da BBC, dos jornais ingleses The Guardian, The Economist, The Financial Times e outras publicações especializadas na França, Alemanha e Itália, está suportando a crise conforme se esperava. O Ministro Guido Mantega, repetiu diversas vezes que os fundamentos econômicos adotados pela sua equipe e a do Meirelles, foram estabelecidos justamente para agüentar quase todos os tipos de solavanco. Não sei se podemos comparar, mas o nosso otimismo neste momento se assemelha ao do sujeito que se jogou do terraço de um prédio de 50 andares. Ao passar pelo 28º andar, um outro que estava com a cabeça do lado de fora da janela perguntou: “E aí, como estás?” O que descia a mais de mil, respondeu: “Até agora tudo bem”.

Mas que a coisa tá feia, tá. Segundo o professor Marcos Pochmann (Unicamp), especialista em diversas áreas de Economia nacional e internacional, o mundo está na iminência de uma grave crise. O professor diz que o PIB mundial hoje é de 50 trilhões de dólares e os ativos financeiros giram em torno de 150 trilhões. Isso significa que os malandros que operam o mercado financeiro criaram uma bolha de 100 trilhões de dólares para se encherem de grana. Em termos reais isso é altamente perigoso. O mercado financeiro parece ter pacto com o capeta. Ele vive o tempo todo especulando, inventando números, cotando preços de produtos primários (dos países pobres) e quando a coisa dá errada, quem paga a conta é a sub-raça do terceiro mundo (África e América Latina). Interessante assinalar, que os especuladores internacionais bradam por todos os cantos que o Mercado regula tudo. É mentira! Não regula nada, ou melhor, o deus-Mercado falseia tudo. A regulação feita por esse Monstro não passa de uma proposição falsa do Neoliberalismo, que toda vez que se vê atolado em falcatruas, corre em direção ao Estado (Governo) para socorrê-lo em suas safadezas.

O que é admirável é que ninguém se atreve a dizer qual é a dimensão real da crise. Por enquanto o Brasil está suportando bravamente o furacão. Há alguns anos, se tivéssemos passando por ele, isso aqui estaria um verdadeiro inferno. Com o barril de petróleo a mais de 100 dólares, o preço da gasolina hoje estaria seguramente em torno de 6 reais. Quem agüentaria? Felizmente a política implantada para investimentos na Petrobrás deu à empresa e ao País um poder de auto-suficiência. Imaginem, se a Petrobras fosse privatizada como queriam aqueles senhores (os mesmos que doaram para os seus comparsas a Vale do Rio Doce). Estaríamos atolados até o pescoço em problemas financeiros, administrativos, econômicos e operacionais. A nossa Balança Comercial estaria mais furada do que tábua de pirulitos.

Toda a inquietação atual tem como origem a especulação. Os bancos americanos de modo ensandecido e usurário compraram títulos de empresas imobiliárias, que por sua vez venderam imóveis a adquirentes super endividados (segundo consta, o crédito contraído pelo americano médio é quase duas vezes sua capacidade de gerar renda ou ao seu patrimônio). Daí a vaca foi pro brejo. E era inevitável que isso acontecesse.

O crescimento é algo que deve ser cuidadosamente planejado. O prof. Gilberto Dupas (USP) diz que em muitos casos, o crescimento de um país é apenas um mito. Alguns países crescem, mas esse crescimento, diz o professor, só serve como referencial de análise da estrutura patrimonial da própria Nação. Para a sociedade em geral isso não traz (ou leva) nenhum benefício. É o caso da China. Este país cresce enormemente. Enquanto isso, como se diz numa gíria do Bairro Jurema: o povo não chupa nada. Em relação à China, depois veremos o tamanho do pepino plantado na terra de Mao Tse Tung. Existe mais de um bilhão de chineses vivendo na mesma miséria em que se encontravam há vinte ou trinta anos. Aqui no Brasil, chegamos a crescer na década de 70, a um ritmo de 14% ao ano. Mas o Povo continuava no mesmo. Quando perguntaram aos militares quando é o que Povo ia participar da festa, eles disseram solenemente que esperássemos o bolo crescer. Até hoje estamos com o prato e os talheres na mão. Mas o que me choca na atual crise, é ver gente torcendo para o País cair na turbulência americana. Para alento dos que querem isso, lembro que embora estejamos sólidos, tudo que é sólido desmancha no ar. Deus salve a América e tende piedade de nós. Um abraço cordial e até a próxima.
xxx

Paulo Pires
(*) Professor UESB-FAINOR.


3 comentários:

Anônimo disse...

Amigo Paulo Pires,

Entendo que o Brasil tomou alguns frascos de Epocler com Engov para se resguardar da “ressaca” provocada pela turbulência do mercado ocasionada pela bolsa imobiliária americana. A bolsa de valores tem nos mostrado com números “reais?” que parecemos estar imunes à catástrofe que nos avizinha. O ministro Guido Mantega tem sido muito rápido em dar declarações que em tese, deixam os aplicadores e investidores “anestesiados”, deixando-os seguros de que nada acontecerá ao Brasil.
Não quero ser precipitado em dizer que as coisas não estão assim como diz o ministro. O meu termômetro é o Fundo de Aplicação de Renda Variável onde está o meu capital, nele, até o presente momento, - dados de ontem (17/03) – nos três primeiros meses deste ano já estou amargando um prejuízo de 21,90%. A bolsa ao contrário, não está assim. Quem é que está ganhando afinal? O meu capital está pedindo socorro. De lá não posso retirar, pois, assim, eu amargarei e estarei realizando prejuízo. Quero saber onde está a mágica, para assim, migrar para lá!

Francisco

Anônimo disse...

Digo: "estarmos imunes" a catástrofe...

a Título de correção.

Francisco

Anônimo disse...

Al Stret não conta já há algum tempo com chamado mago da econômia -Alan Grespan. O pior disso tudo - querem globalizar totalmente o mundo!!!.