quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Histórias de quem vive atravessando o País a pé

Juscelino Souza, A Tarde
Vitória da Conquista Raimundo Florisbaldo, mineiro de Janaúba, 20 anos, não tem documento de identidade.

Ele também não tem casa, nem família, nem amigos e é mais um dos milhares de andarilhos que cruzam boa parte do País usando como atalho as estradas de terra e asfalto.

Florisbaldo foi encontrado andando na BR-116 (Rio-Bahia), nas proximidades do município baiano de Planalto, a mais de 470 quilômetros da cidade natal.

“Sou sem ninguém e ando por aí atrás de emprego”, conta o andarilho. Ex-gari, revela que só tem medo de escuridão.

“De noite, eu paro e procuroum lugarseguro pradormir”.

Ele diz viver na estrada desde os 10 anos .

O baiano de Mascote Marcelo Viana Rosalino, 36 anos, também conta suas histórias.

“Já vi muita gente morta em acidente nas estradas. Vi gente assaltando, fugindo, mas a gente faz de conta que não percebe pra não ser vítima também”, ensina.

Não existe estatística oficial a respeito dos andarilhos, mas quem transita pelas rodovias não tem dúvida de que a maioria é formada por homens, com idades entre 25 e 60 anos. Muitos relatam que a cama é um pedaço de papelão.

Viadutos, pontes ou fundos de postos de combustível funcionam como abrigo.

Eles costumam comer restos encontrados no lixo dos restaurantes e vez ou outra realizam bicos. Raramente, ganham carona. “As roupas maltrapilhas, barba por fazer e as tralhas às costas logo denunciam um serà margem da sociedade e que, por isso, é rechaçado”, avalia o sociólogo Gustavo Madeira.

O andarilho Manoel José dos Santos, 56 anos, sabe bem o que isso significa. Alagoano de Murici, diz que anda pelas estradas desde que foi abandonado pela família. “Fui expulso de casa, meus filhos viraram as costas pra mim”. O roteiro dos últimos dias é bem longo.

“Saí de Belém, passei em São Paulo, conheço Brasília e agora vou em direção a Jequié.

Faz dois meses que estou andando”.

Manoel exibe pés e mãos calejados como prova do gosto por trabalho. “Quando encontro roça ou aguada pra limpar, é alegria na certa, pois garante a comida”.

O professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) Paulo Pires faz um resumo doperfil do andarilho.

“É bem verdade que al guns se sentem felizes porque estão livres das amarras neurotizantes do sistema. Não pagam imposto, água, luz, telefone.

Não vão à escola pegar filhos, netos, sobrinhos”. O professor diz queo andarilho não se sente obrigado a nada porque perdeu todas as referências.

“Não se lembra das comemoraçõescívicas, datas de aniversários”, enumera.

O andarilho alagoano ManoelJosé dosSantosconfirma o perfil traçado pelo professor.

“Tenho essa roupa do corpo.

Lavo, torço, visto e vou-me embora de novo. Se aparecer alguém para me ajudar, graças a Deus. Se não, graças a Ele também”, sorri e segue, acenando.

“Se aparecer alguém para me ajudar, graças a Deus ” MANOEL JOSÉ DOS SANTOS, andarilho, 56 anos

Um comentário:

  1. ..fossem CORRUPTOS,famosos,com "status" social - Logo,seriam considerados heróis,tinham do que vangloriarem-se!.VIVA O BRASIL!.No qual há quem defenda um inseto, uma arvore.Mas, dificílmente,quem defenda á própria especíe!.J Dean

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