A inauguração do Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha vem coroar a longa e rica trajetória protagonizada por esta casa ao longo de quase 100 anos. Fundado no Natal do ano de 1919, o Cine Guarany, que, em 1982, se tornou o Cine Glauber Rocha, veio ao mundo, na verdade, com outro nome: Cine-Theatro Kursaal Bahiano.
Conta o arquiteto e professor da Ufba Nivaldo Vieira de Andrade Junior, em seu texto A influência italiana na modernidade baiana: O caráter público, urbano e monumental da arquitetura de Filinto Santoro, que o Kursaal foi projetado pelo arquiteto italiano do título da sua matéria.
Moderníssimo para a época, contava com 1,2 mil lugares, “uma lanchonete, um quiosque de jogos, um jardim e ‘uma balaustrada que contorna a praça Castro Alves com estátuas e duas pirâmides decorativas iniciais‘“, escreveu Andrade.
Segundo Cláudio Marques, o nome não agradou ao público, que pressionou o proprietário do estabelecimento, até que este mudou, logo no ano seguinte, para Cine Guarany. Muito confortável, era freqüentado pela elite da sociedade baiana.
Décadas depois, após um certo período de decadência, o Cine Guarany foi novamente reformado e reinaugurado, em 1955, com a exibição do filme O Manto Sagrado (1953), de Henry Koster.
Foi nesse momento que se deu a modernização do seu equipamento, com a chegada do formato Cinemascope (com o telão retangular) e do som estéreo.
Naqueles tempos, e durante muitos anos depois, o público na sala de espera era avisado que o filme ia começar pelos acordes iniciais da ópera homônima de Carlos Gomes, O Guarany.
CHORO – O conceituado crítico de cinema e professor da Ufba Adré Setaro lembra, em seu blog (setarosblog.blogspot.com), que foi lá também que o cinema baiano viveu alguns dos seus momentos mais importantes: “Foi no Guarany também que se deu a estréia de Redenção (1959), de Roberto Pires, o primeiro longametragem do cinema baiano, cuja lente, anamórfica, foi inventada pelo próprio diretor“.
Setaro ainda conta que o Guarany era a sede do Clube de Cinema da Bahia, fundado por Walter da Silveira em meados dos anos 60, cujas sessões eram sempre às 10 horas da manhã de sábado.
Além disso, foi também no Guarany que se deu a primeira apresentação de Deus e O Diabo na Terra do Sol, do próprio Glauber Rocha. O episódio é citado pelo cineasta baiano Orlando Senna durante o documentário em curta-metragem O Guarany, co-dirigido pelo próprio Cláudio Marques com Marília Hughes.
Conta Senna que, após a exibição do filme, todos ficaram cerca de dez minutos calados, até irromperem em um choro emocionado.
CINE GLAUBER – Após a morte de Glauber Rocha, em agosto de 1981, o velho Cine Garany mudou de nome mais uma vez, agora homenageando o cineasta.
Após uma nova reforma, encabeçada por outro profissional da arquitetura de origem italiana – no caso, Lina Bo Bardi, que encomendou ao designer tropicalista Rogério Duarte a rosácea que adornava sua fachada –, o cinema foi reaberto em 1982.
Durante toda a década de 80 e boa parte dos anos 90, o Cine Glauber ainda atraiu bastante público, resistindo à decadência imposta pelo abandono do Centro pelo poder público e ao assédio dos novos cinemas de shopping, que em poucos anos se tornariam hegemônicos. Nos anos 90, a decadência se acirrou ainda mais, culminando com o fechamento do Cine Glauber Rocha em 1998.
ESPERA – Dez anos depois, essa casa erguida em 1919 chega à sua terceira encarnação, como Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha. Do antigo Kursaal-Bahiano/ Cine Guarany, resta um pórtico original do projeto de 1919 de Filinto Santoro, com uma “cariátide em estilo neoclássico“, como classificou o idealizador Cláudio Marques. Do antigo Cine Glauber Rocha, restam o nome e a rosácea.
Para fazer jus à tanta espera e expectativa, Cláudio conta com a ótima estrutura das salas, as atrações anexas (café, livraria) e a qualidade dos filmes que exibirá para atrair o grande público.
CHICO CASTRO JR.
ccastrojr@grupoatarde.com.br
Conta o arquiteto e professor da Ufba Nivaldo Vieira de Andrade Junior, em seu texto A influência italiana na modernidade baiana: O caráter público, urbano e monumental da arquitetura de Filinto Santoro, que o Kursaal foi projetado pelo arquiteto italiano do título da sua matéria.
Moderníssimo para a época, contava com 1,2 mil lugares, “uma lanchonete, um quiosque de jogos, um jardim e ‘uma balaustrada que contorna a praça Castro Alves com estátuas e duas pirâmides decorativas iniciais‘“, escreveu Andrade.
Segundo Cláudio Marques, o nome não agradou ao público, que pressionou o proprietário do estabelecimento, até que este mudou, logo no ano seguinte, para Cine Guarany. Muito confortável, era freqüentado pela elite da sociedade baiana.
Décadas depois, após um certo período de decadência, o Cine Guarany foi novamente reformado e reinaugurado, em 1955, com a exibição do filme O Manto Sagrado (1953), de Henry Koster.
Foi nesse momento que se deu a modernização do seu equipamento, com a chegada do formato Cinemascope (com o telão retangular) e do som estéreo.
Naqueles tempos, e durante muitos anos depois, o público na sala de espera era avisado que o filme ia começar pelos acordes iniciais da ópera homônima de Carlos Gomes, O Guarany.
CHORO – O conceituado crítico de cinema e professor da Ufba Adré Setaro lembra, em seu blog (setarosblog.blogspot.com), que foi lá também que o cinema baiano viveu alguns dos seus momentos mais importantes: “Foi no Guarany também que se deu a estréia de Redenção (1959), de Roberto Pires, o primeiro longametragem do cinema baiano, cuja lente, anamórfica, foi inventada pelo próprio diretor“.
Setaro ainda conta que o Guarany era a sede do Clube de Cinema da Bahia, fundado por Walter da Silveira em meados dos anos 60, cujas sessões eram sempre às 10 horas da manhã de sábado.
Além disso, foi também no Guarany que se deu a primeira apresentação de Deus e O Diabo na Terra do Sol, do próprio Glauber Rocha. O episódio é citado pelo cineasta baiano Orlando Senna durante o documentário em curta-metragem O Guarany, co-dirigido pelo próprio Cláudio Marques com Marília Hughes.
Conta Senna que, após a exibição do filme, todos ficaram cerca de dez minutos calados, até irromperem em um choro emocionado.
CINE GLAUBER – Após a morte de Glauber Rocha, em agosto de 1981, o velho Cine Garany mudou de nome mais uma vez, agora homenageando o cineasta.
Após uma nova reforma, encabeçada por outro profissional da arquitetura de origem italiana – no caso, Lina Bo Bardi, que encomendou ao designer tropicalista Rogério Duarte a rosácea que adornava sua fachada –, o cinema foi reaberto em 1982.
Durante toda a década de 80 e boa parte dos anos 90, o Cine Glauber ainda atraiu bastante público, resistindo à decadência imposta pelo abandono do Centro pelo poder público e ao assédio dos novos cinemas de shopping, que em poucos anos se tornariam hegemônicos. Nos anos 90, a decadência se acirrou ainda mais, culminando com o fechamento do Cine Glauber Rocha em 1998.
ESPERA – Dez anos depois, essa casa erguida em 1919 chega à sua terceira encarnação, como Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha. Do antigo Kursaal-Bahiano/ Cine Guarany, resta um pórtico original do projeto de 1919 de Filinto Santoro, com uma “cariátide em estilo neoclássico“, como classificou o idealizador Cláudio Marques. Do antigo Cine Glauber Rocha, restam o nome e a rosácea.
Para fazer jus à tanta espera e expectativa, Cláudio conta com a ótima estrutura das salas, as atrações anexas (café, livraria) e a qualidade dos filmes que exibirá para atrair o grande público.
CHICO CASTRO JR.
ccastrojr@grupoatarde.com.br








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