domingo, 4 de maio de 2008

ACADEMIA DO PAPO


Duas figuras monumentais

Alguém disse que o grande escritor e jornalista americano Norman Mailler havia adotado os Estados Unidos como o seu assunto. Realmente, Mailler era fissurado na América do Norte. Era o seu tema predileto. Como bom nova-iorquino, mas não só por isso, o homem conhecia tudo, ou quase tudo do seu País. Observem que eu disse “bom nova-iorquino”. Convém acrescentar, como dizem os bostonianos, que esta cidade [Nova Iorque] “também tá cheia de bobocas”. Principalmente os que moram lá (e não são de lá), mas que após seis meses de praça começam a achar a cidade o centro do mundo.


Mas que a cidade é fascinante ninguém discute. Conheço gente que quando arranja 5 mil dólares, imediatamente se manda para conhecer a Big Apple. Depois volta mais duro do que pau de telhado dizendo com a boca cheia: “estava em Nova Iorque!”. E nós, que não estamos nem aí para a cidade das ex-torres gêmeas, como nos situamos? Diria que Conquista para mim é o centro do mundo. Conquista é a minha Nova Iorque. Nela encontro grandes figuras. Pessoas boas, generosas, sorridentes, engraçadas e cheias de mumunhas. Curioso é que cultivamos intenso amor pela cidade mesmo sem termos em nossa memória, imagens claras das grandes figuras que fundaram e construíram esta terra. A não ser na Casa Régis Pacheco, onde podemos ver grandes vultos conquistenses, não temos em outros espaços públicos estátuas ou monumentos dos nossos antepassados. Se informássemos esse aspecto ao Doutor Ulisses Guimarães (que era super engraçado), ele diria, como disse em certa ocasião que “estátua só serve para passarinho fazer cocô em cima dela” (ah, ah, ah).

Nós não temos aqui, como nas grandes cidades, grandes monumentos ou estátuas de heróis. As únicas que lembro e que me vêm à lembrança são a do Índio (iniciativa de André Cairo), monumento à Bíblia (na Praça Vítor Brito) e a homenagem que o grande prefeito Murilo Mármore prestou aos imigrantes na Praça Mármore Neto. Além desses, não me recordo de mais nada. Porém, alguns vultos estão em nossa memória. São figuras que marcaram presença em nosso território. Essas personalidades, em alguns casos, não foram destaques nas áreas da pesquisa científica, ou fizeram parte do teatro formal, da literatura acadêmica ou da sociedade conservadora. Muito pelo contrário. Alguns se destacaram justamente por não fazerem parte do rol dos “seres comuns”, arquétipos da sociedade convencional.

Dentre essas personalidades “notáveis” (fora do senso comum) destaco o nome de Rosa Bigode. Quem, da geração de 1940 a 1960, não se lembra de Rosa? Ou melhor, quem dos homens daquela época não compareceu ao Cabaré de Rosa? Em que pese seu “comércio” ser, do ponto de vista da moralidade senhorial, alvo de crítica nas melhores salas de nossa sociedade, Rosa era uma pessoa muito respeitada. Ninguém de sã consciência se dava ao direito de desconhecer a figura emblemática dessa senhora. Fatos e mais fatos marcaram a sua presença. Creio que o mais conhecido de todos foi aquele em que conhecidos “barões” de nossa sociedade, após notório excesso de bebida, acharam que podiam fazer as estripulias que lhes conviessem dentro do seu Cabaré. Um dos que estavam presentes me confessou que Rosa se aproximou do grupo, deu um soco na mesa, levantando tudo quanto foi garrafa e bradou: “Cês tão pensando que estão no Clube Social?”. Com o olhar duro que sabia fazer, manteve-se ali em pé, esperando quem ousava dizer alguma coisa. Ninguém se atreveu. Simplesmente, se ajeitaram, arrumaram melhor as cadeiras e reiniciaram a conversa, agora com bons modos. A noite prosseguiu serena e respeitosa dentro do Velho Magassapo.

Outra figura que merecia um monumento em nossa cidade era o Ademar Galvão. Este fazia parte do rol das pessoas mais convencionais. Porém tinha um quesito que o distinguia das demais: alto senso de empreendedorismo. Ademar era um homem ágil. Raciocinava rápido e via oportunidades como poucos em nossa região. Foi uma pena que num momento de transição, não pôde sustentar uma questão burocrática com o Banco do Nordeste, o que acabou inviabilizando toda a sua trajetória empresarial. Mas, diria que foi com ele [Ademar] que Conquista começou a experimentar espaços de crescimento e dar visíveis avanços no campo de novos empreendimentos. Infelizmente, alguns acontecimentos perturbaram o seu percurso e quem acabou perdendo fomos todos nós. A cidade jamais poderia tratar o Ademar com a indiferença que a ele foi conferida. Mas é isso aí. Creio que ele foi vitima da tese do economista Schumpeter que falava em “destruição criativa”. Nesse caso, acho que erramos. E o erro, dizia um velho filósofo, é a deformação da realidade. Um abraço cordial e até a próxima.

Paulo Pires
Professor UESB-FAINOR

Nenhum comentário: